A cidade brasileira que proibiu carros por lei e 75% dos moradores se movem de bicicleta
Carros proibidos por lei e 75% de bicicleta
Em Afuá, bem na foz do Rio Amazonas, o ronco do motor se cala no trapiche e o que sobra são os pedais. A cidade que atende pelo apelido de Veneza Brasileira não conhece o asfalto: em seu lugar, uma teia de passarelas de madeira suspensa sobre as terras alagadas do Arquipélago do Marajó, por onde 75% dos moradores se movem de bicicleta. Por força de lei, desde 2002 os automóveis são proibidos de circular por ali.
Por que nenhum carro consegue entrar nessa cidade erguida sobre palafitas
Afuá foi inteiramente construída em uma área de várzea que permanece constantemente alagada, a cerca de 15 quilômetros ao sul da Linha do Equador. As passarelas de madeira que servem de ruas foram levantadas a 1,20 metro acima do nível dos rios e simplesmente não aguentariam o peso de um carro. As motocicletas até tentaram se aventurar por ali durante os anos 1990, mas a rápida deterioração das estruturas forçou a prefeitura a banir de vez qualquer veículo motorizado do perímetro urbano. A proibição foi ainda mais reforçada pela Lei Municipal nº 495/2022, que estendeu a restrição também para as passarelas que cortam a zona rural.
O que se vê como resultado é uma experiência que poucos lugares no mundo conseguem oferecer. Até mesmo os serviços essenciais tiveram que se curvar à lógica das duas rodas: a polícia faz suas rondas de bicicleta, e o atendimento médico de urgência é feito pela “bicilância”, um veículo a pedal que carrega uma maca e suporte para cilindros de oxigênio. A National Geographic Brasil já publicou uma reportagem apontando Afuá como uma referência global de mobilidade sustentável, um destino que arquitetos e urbanistas do mundo inteiro olham com admiração.

O bicitáxi que nasceu da vontade de um pai de passear com os filhos
A história aconteceu em 1995. Um morador chamado Raimundo do Socorro Souza, mais conhecido como Sarito, queria levar toda a sua família para dar uma volta, mas a simples garupa da bicicleta não dava conta de acomodar todo mundo. A solução que ele encontrou foi emendar duas bicicletas usando uma estrutura de metal, criando assim um quadriciclo movido pela força dos pedais. Estava inventado o bicitáxi, que hoje em dia é considerado patrimônio cultural de Afuá.
Os próprios moradores da cidade se referem aos bicitáxis simplesmente como “carros”. Os metalúrgicos que trabalham no local montam cada um desses veículos sob encomenda, e os donos fazem questão de personalizá-los com pinturas em grafite, nomes de super-heróis e conjuntos de luzes de LED que são alimentadas por baterias. Um bicitáxi que sai equipado com um sistema de som automotivo e uma iluminação mais caprichada pode chegar a custar até R$ 15 mil. Uma corrida, dependendo da distância a ser percorrida, sai por um valor que varia entre R$ 5 e R$ 10. A invenção acabou criando toda uma microeconomia que envolve artesãos, mecânicos e os próprios condutores.
O que se pode fazer em uma cidade que não tem semáforos nem buzinas
A melhor forma de conhecer Afuá é entregue ao ritmo suave das pedaladas e ao compasso das marés. A cidade inteira já é, por si só, uma grande atração, mas existem programas que vão muito além de simplesmente percorrer as passarelas. Os destaques são estes:
- Passarelas do centro: Percorrer a pé ou de bicicleta as ruas que flutuam sobre a água é a experiência principal. O cenário é composto por casas de cores vivas erguidas sobre palafitas, feiras que vendem peixe fresco e açaí, e a Praça Micaela Ferreira.
- Festival do Camarão: Em julho, o evento chega a reunir quatro dias de shows, uma farta gastronomia e o tradicional desfile da Biciata, ocasião em que os donos de bicitáxis enfeitam seus veículos com temas que vão desde lendas da Amazônia até ícones da cultura pop.
- Orla e Terminal Hidroviário: Funcionam como um mirante natural para o ponto onde os rios se encontram. No final da tarde, toda a paisagem se tinge de tons alaranjados que refletem sobre as águas.
- Parque Estadual Charapucu: Uma unidade de conservação que protege 651 quilômetros quadrados de várzeas e igapós ainda muito bem preservados, e que foi criada pelo Ideflor-Bio em 2010.
- Passeios de barco pelos igarapés: Roteiros que são feitos pelos rios e que levam os visitantes até comunidades ribeirinhas, áreas onde se faz a coleta do açaí e trechos de floresta que permanecem alagados.
- Igreja de Nossa Senhora da Conceição: Construída em 1871, é o marco religioso mais antigo de toda a cidade e serve como ponto de partida para o tradicional Círio de Afuá.
Quem se interessa pela cultura da Amazônia, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 177 mil visualizações, onde Guilherme e Paula exploram Afuá, no Pará, a incrível cidade das bicicletas onde não entram carros:
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O clima de Afuá é o equatorial, que é quente e úmido, e o ano se divide de forma bem clara entre o inverno amazônico (a estação das chuvas) e o verão (que é o período mais seco). O regime das marés exerce uma influência direta tanto no dia a dia da população quanto no próprio acesso à cidade.
As temperaturas são valores aproximados, baseados nos dados do Climatempo. As condições podem mudar um pouco de acordo com a maré.
O caminho para chegar a uma cidade onde o asfalto simplesmente não existe
Afuá é uma ilha e, por isso, não existe nenhuma forma de acesso por via terrestre. A rota que é utilizada com mais frequência parte da cidade de Macapá a bordo de lanchas rápidas, e a travessia dura mais ou menos 2 horas e 30 minutos, a depender de como estiver a maré. Para quem sai de Belém, a distância é de cerca de 300 quilômetros, e as opções são enfrentar uma viagem de barco que pode levar de 2 a 3 dias ou, então, optar por um táxi aéreo em aviões de pequeno porte. A cidade conta com um pequeno aeroporto, cuja pista, nos períodos em que não há pousos ou decolagens, acaba virando uma área de caminhada e de corrida para os próprios moradores.
Pegue o barco e abandone o motor para trás
Afuá está longe de ser um destino que se possa chamar de convencional. É uma cidade inteira que foi construída sobre a água, um lugar onde o trânsito se resolve no pedal, onde o açaí chega à mesa ainda quente e onde as crianças aprendem a se equilibrar em duas rodas antes mesmo de completarem cinco anos de idade. O silêncio que sobra quando não há nenhum motor por perto é preenchido pelo som ritmado dos remos batendo na água, pelo ruído das correntes das bicicletas e pelo canto dos pássaros que habitam a várzea.
Você precisa descer do barco em Afuá e experimentar na própria pele o que acontece quando uma cidade inteira toma a decisão de que o motor, afinal de contas, não faz a menor falta.
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