Vespas começaram a ocupar casas que árvores tropicais construíram para formigas e transformaram os abrigos em depósitos de presas paralisadas
Pesquisa em Bornéu revela como vespas predadoras aproveitam abrigos de formigas e se tornam mais frequentes em plantações de dendê
Nas florestas de Bornéu, pesquisadores descobriram vespas em Macaranga utilizando espaços destinados a formigas protetoras. A espécie Dasyproctus agilis transforma os caules em ninhos abastecidos com moscas paralisadas, ameaçando potencialmente uma parceria ecológica desenvolvida ao longo de milhões de anos.
Como as árvores Macaranga desenvolveram uma parceria tão antiga com as formigas?
Nas florestas tropicais do Sudeste Asiático, árvores do gênero Macaranga mantêm relações especializadas com formigas do gênero Crematogaster. Essa associação evolutiva existe há milhões de anos e representa um exemplo de mutualismo, interação em que organismos diferentes recebem benefícios essenciais para sua sobrevivência.
A árvore oferece alimento e estruturas internas chamadas domácias, utilizadas como moradia. Em Macaranga pearsonii, os caules possuem tecido interno que pode ser escavado pelas formigas. Em troca, as colônias patrulham folhas e ramos, combatendo lagartas, outros herbívoros e plantas competidoras que poderiam prejudicar seu desenvolvimento.
O que os pesquisadores encontraram dentro dos abrigos ocupados pelas vespas em Macaranga?
Durante levantamentos em Sabah, na Malásia, cientistas identificaram caules ocupados por Dasyproctus agilis. Diferentemente das formigas, essas vespas não oferecem proteção conhecida à árvore. As fêmeas escavam cavidades e armazenam moscas adultas previamente paralisadas, utilizadas como alimento pelas larvas durante seu desenvolvimento.
A descoberta revelou uma forma de exploração de estruturas vegetais originalmente associadas ao mutualismo. Os pesquisadores identificaram cinco elementos importantes desse comportamento:
- As vespas utilizam caules de árvores vivas como locais de reprodução;
- As fêmeas capturam moscas adultas para alimentar suas larvas;
- As presas são paralisadas antes de serem armazenadas;
- As cavidades também podem abrigar formigas protetoras;
- A ocupação foi registrada em diferentes espécies de Macaranga.
Por que as vespas em Macaranga podem representar um problema para as formigas?
O principal conflito envolve o espaço disponível dentro dos caules. As formigas dependem dessas estruturas para estabelecer e expandir suas colônias, enquanto as vespas utilizam o mesmo recurso para reprodução. Quando uma cavidade é ocupada por outro inseto, sua disponibilidade para as formigas pode diminuir.
Entretanto, a relação causal permanece desconhecida. As vespas podem limitar o crescimento das colônias ou simplesmente aproveitar plantas que já possuem poucas formigas. O estudo encontrou associação entre maior presença de vespas e colônias menores, mas não demonstrou que os insetos invasores expulsam diretamente as formigas residentes.
Como os cientistas investigaram a ocupação dessas árvores tropicais?
O trabalho liderado por Dan Leština, com participação de pesquisadores da Queen Mary University of London e outras instituições, foi publicado na revista PeerJ, em abril de 2026. O estudo científico original examinou árvores de Macaranga em diferentes regiões de Sabah, incluindo florestas exploradas e plantações comerciais de dendê.
Os pesquisadores realizaram dissecações dos caules, identificaram os insetos presentes e compararam ambientes. Também avaliaram o tamanho das colônias de formigas e os danos provocados por herbívoros nas folhas. Essa abordagem permitiu reconhecer padrões ecológicos, embora não estabelecesse experimentalmente qual organismo determina a ocupação das cavidades.
Onde a presença de vespas em Macaranga foi mais frequente?
A comparação entre ambientes apresentou diferenças expressivas. Nas plantações de dendê, 12 das 43 árvores examinadas continham vespas, aproximadamente 28%. Nas florestas submetidas à exploração madeireira, apenas uma entre 41 árvores apresentou ocupação, correspondendo a aproximadamente 2,4%.
O levantamento regional também incluiu 213 árvores de espécies de Macaranga adequadas à colonização. Esses resultados sugerem que ambientes agrícolas intensamente modificados favorecem a ocupação, embora os mecanismos envolvidos ainda precisem ser identificados.
| Área pesquisada | Árvores | Resultado |
|---|---|---|
| Plantação de dendê | 43 | 12 ocupadas (27,9%) |
| Floresta explorada | 41 | 1 ocupada (2,4%) |
| Levantamento regional | 213 | Inspeção de caules |
O que essa descoberta pode revelar sobre o futuro das florestas tropicais?
As árvores Macaranga frequentemente estão entre as primeiras espécies vegetais que colonizam áreas degradadas. Caso a ocupação pelas vespas reduza efetivamente a proteção oferecida pelas formigas, a sobrevivência dessas plantas poderá ser afetada, com possíveis consequências para a regeneração florestal.
Por enquanto, não foram encontradas evidências significativas de aumento dos danos causados por herbívoros associado às vespas. Experimentos futuros deverão esclarecer se existe competição direta, quais condições favorecem a colonização e se essa mudança pode provocar alterações evolutivas duradouras na parceria entre árvores e formigas.
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