Duas baleias extremamente raras apareceram na mesma temporada em Santa Catarina pela primeira vez em quatro décadas de monitoramento
Pesquisadores identificaram duas fêmeas com coloração rara em Imbituba e registraram um filhote com o mesmo padrão, ampliando o conhecimento sobre a genética da espécie
Duas fêmeas de baleia-franca-austral (Eubalaena australis) com coloração semi-albina foram identificadas na temporada reprodutiva de 2026, em Imbituba, Santa Catarina. É a primeira vez em mais de 40 anos de monitoramento que duas fêmeas com essa característica aparecem na mesma temporada na região. Uma delas estava acompanhada de um filhote igualmente semi-albino.
Como duas baleias-francas raras foram encontradas na mesma região?
A primeira fêmea foi identificada durante um sobrevoo científico realizado em setembro. A segunda apareceu em 14 de outubro, nas enseadas da Ribanceira e de Ibiraquera, dentro da Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca. As imagens foram obtidas pelo coordenador de pesquisa Kevin S. Christmann, utilizando um drone.
Inicialmente, os pesquisadores consideraram que poderiam estar observando novamente a fêmea de setembro. Entretanto, a presença de um filhote semi-albino, diferente daquele visto anteriormente, indicou que se tratava de outra baleia. A descoberta ampliou o conhecimento sobre uma característica genética pouco frequente nessa população.
Por que essas baleias-francas apresentam uma coloração tão incomum?
O semi-albinismo é uma característica genética que provoca redução parcial da pigmentação. Nas baleias-francas-austrais, normalmente escuras, alguns indivíduos apresentam grandes áreas esbranquiçadas. Os filhotes com esse padrão podem nascer bastante claros e adquirir tonalidades acinzentadas ou amarronzadas conforme envelhecem.
O registro catarinense reuniu informações importantes sobre reprodução, herança genética e reconhecimento individual. Cinco características tornam a observação especialmente relevante:
- Duas fêmeas semi-albinas foram identificadas na mesma temporada;
- Os encontros aconteceram em setembro e outubro de 2026;
- A segunda fêmea estava acompanhada de um filhote semi-albino;
- O filhote observado com a primeira fêmea apresentava coloração escura;
- As imagens foram obtidas por sobrevoo convencional e monitoramento com drone.

Como a genética explica o semi-albinismo das baleias-francas?
Segundo Eduardo Renault, diretor de projetos do Instituto Australis, a característica está associada ao cromossomo sexual X. No modelo de herança descrito pela equipe, fêmeas precisam receber duas cópias da variante genética para apresentar o padrão, enquanto machos podem expressá-lo com apenas uma cópia.
Essa diferença permite interpretações sobre os filhotes. Os pesquisadores identificaram como fêmea o filhote escuro observado em setembro, considerando o padrão genético materno. Já o sexo do filhote semi-albino registrado em outubro não pôde ser estabelecido somente pela coloração. A observação também não comprova, isoladamente, aumento da diversidade genética populacional.
Como os pesquisadores identificaram as duas baleias ao longo do monitoramento?
O comunicado oficial do Projeto Franca Austral, publicado pelo Instituto Australis, em 15 de outubro de 2026, documentou a observação. Karina Groch, diretora de pesquisa, explicou que a equipe reconheceu a diferença entre as fêmeas ao comparar as características dos pares de mãe e filhote.
A identificação individual também utiliza calosidades naturais presentes na cabeça das baleias. Essas estruturas apresentam desenhos particulares e são frequentemente recobertas por pequenos crustáceos chamados ciamídeos. Fotografias obtidas em diferentes temporadas permitem comparar marcas, reconhecer animais e acompanhar históricos reprodutivos durante anos. Instituto Australis+1
Quais números mostram a importância das baleias-francas identificadas em Santa Catarina?
O acompanhamento da espécie ultrapassa quatro décadas no Brasil, enquanto o Catálogo Brasileiro de Fotoidentificação reúne registros históricos de mais de mil indivíduos. Esses arquivos permitem verificar retornos à costa, intervalos entre nascimentos e deslocamentos entre áreas reprodutivas, inclusive entre Brasil e Argentina.
Em setembro de 2026, um levantamento do projeto contabilizou 185 baleias-francas entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Esse número representa animais observados durante aquele sobrevoo, não a população total da espécie. A presença de duas fêmeas semi-albinas é particularmente relevante pelo histórico de observações acumulado.
| Registro científico | Informação documentada |
|---|---|
| Primeira fêmea semi-albina | Setembro de 2026 |
| Segunda fêmea semi-albina | 14 de outubro de 2026 |
| Histórico de monitoramento | Mais de 40 anos |
| Catálogo de identificação | Mais de 1.000 indivíduos registrados |
| Sobrevoo de setembro de 2026 | 185 baleias observadas entre SC e RS |
O que o encontro dessas baleias-francas pode revelar sobre a conservação?
O registro oferece uma oportunidade para investigar como variantes genéticas associadas à pigmentação aparecem entre gerações. Entretanto, duas observações não permitem calcular a frequência dessa característica na população, nem determinar se ela está aumentando. Para isso, seriam necessários dados genéticos e comparações entre diferentes temporadas reprodutivas.
O acompanhamento contínuo também ajuda a avaliar reprodução, sobrevivência dos filhotes e fidelidade das fêmeas às áreas de nascimento. A proteção das enseadas catarinenses permanece essencial diante de ameaças como colisões com embarcações, emalhamento em equipamentos de pesca e perturbações humanas. Cada reencontro documentado acrescenta informações à história individual desses grandes mamíferos marinhos.
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