Um jardim plantado na faixa entre calçada e rua multiplicou por sete os insetos e praticamente dobrou o número de espécies encontradas ali
As abelhas tiveram a resposta mais forte e consistente entre todos os grupos de insetos avaliados

O que você vai ver
- O que é a faixa entre calçada e rua e por que ela costuma oferecer pouco valor ecológico.
- Como os pesquisadores compararam o antes e o depois do plantio nativo.
- Qual grupo de insetos respondeu mais fortemente à mudança de vegetação.
- Por que borboletas e besouros mostraram resultados mais variáveis entre os pontos estudados.
- Como conectar vários pequenos jardins poderia ampliar ainda mais esse benefício na cidade.
Um jardim com espécies nativas plantado na faixa estreita de terra entre a calçada e a rua multiplicou por sete a quantidade de insetos encontrados naquele mesmo pedaço de terreno, e praticamente dobrou o número de espécies diferentes registradas ali, segundo um estudo conduzido em bairros de Melbourne, na Austrália.
O que é a faixa entre calçada e rua e por que ela costuma oferecer pouco valor ecológico?
A faixa de terra situada entre a calçada e a rua, presente na maioria dos bairros residenciais de várias cidades ao redor do mundo, costuma ser coberta apenas por grama comum, mantida curta através de cortes frequentes que, segundo a pesquisadora Philippa Bell, da Universidade de Melbourne, “raramente permitem que as plantas floresçam”, condição que oferece pouquíssimo abrigo ou alimento para insetos e outros pequenos animais silvestres.
Apesar de ser um espaço praticamente onipresente dentro da malha urbana, essa faixa gramada tradicional costuma ser tratada apenas como detalhe estético padronizado, sem qualquer função ecológica relevante, o que a torna um exemplo claro de quanto espaço urbano potencialmente útil permanece hoje subaproveitado em termos de biodiversidade, mesmo estando literalmente em frente a milhões de residências.

Como os pesquisadores compararam o antes e o depois do plantio nativo?
A equipe da Universidade de Melbourne conduziu uma comparação direta entre o período anterior e o período posterior ao plantio de jardins com espécies nativas em faixas urbanas localizadas no município de Merri-bek, na região norte de Melbourne, metodologia que permitiu isolar especificamente o efeito da mudança de vegetação sobre a comunidade de insetos presente naqueles mesmos pontos específicos da cidade.
Esse desenho de pesquisa, comparando o mesmo local antes e depois da intervenção, em vez de apenas comparar faixas diferentes entre si num único momento, fortalece a conclusão de que o aumento observado na abundância e na diversidade de insetos resultou diretamente da mudança de vegetação implementada, não de alguma outra diferença pré-existente entre locais distintos da cidade.
Qual grupo de insetos respondeu mais fortemente à mudança de vegetação?
Entre os diferentes grupos de insetos analisados, as abelhas apresentaram a resposta positiva mais consistente ao plantio de espécies nativas, aumento que os pesquisadores associaram diretamente à maior abundância de flores e à maior diversidade de plantas disponíveis nas faixas transformadas, em comparação com a grama comum mantida curta que ocupava o mesmo espaço anteriormente.
Essa resposta mais forte e consistente das abelhas faz sentido do ponto de vista biológico, já que esses insetos dependem diretamente de flores como fonte primária de alimento, o que torna qualquer aumento na disponibilidade floral um estímulo relativamente direto e previsível para o aumento da presença desses polinizadores especificamente naquele novo ambiente urbano criado pelo plantio nativo.
Por que borboletas e besouros mostraram resultados mais variáveis entre os pontos estudados?
Borboletas e besouros também responderam positivamente à presença dos novos jardins nativos nas faixas urbanas estudadas, mas com variabilidade consideravelmente maior entre os diferentes pontos de plantio do que a observada para as abelhas, padrão que sugere que esses dois grupos de insetos podem depender de fatores adicionais, além da simples presença de flores, para colonizar efetivamente um novo ambiente urbano criado artificialmente.
Essa maior variabilidade entre pontos específicos pode refletir diferenças sutis na composição exata de espécies vegetais plantadas, no tamanho de cada faixa individual, na proximidade com outras áreas verdes maiores da cidade ou mesmo em fatores microclimáticos locais que afetam de forma diferente a colonização por borboletas e besouros em comparação com o padrão mais uniforme observado entre as abelhas.

Como conectar vários pequenos jardins poderia ampliar ainda mais esse benefício na cidade?
Os próprios pesquisadores sugerem que criar conectividade entre múltiplas faixas de jardim nativo espalhadas pela cidade, em vez de tratá-las como pontos isolados entre si, poderia ampliar significativamente o benefício ecológico observado em cada ponto individual, permitindo que populações de polinizadores se desloquem com mais facilidade entre diferentes trechos de habitat criados ao longo de ruas distintas do mesmo bairro.
Essa perspectiva de conectividade é especialmente relevante considerando que faixas entre calçada e rua estão presentes de forma praticamente onipresente em cidades ao redor do mundo, o que significa que a multiplicação dessa iniciativa específica de plantio nativo, se replicada em escala suficiente, poderia transformar uma rede de pequenos espaços hoje subutilizados num corredor ecológico urbano capaz de sustentar populações de insetos muito maiores do que qualquer jardim isolado conseguiria sozinho, trazendo também benefícios sociais associados ao maior contato dos moradores com a natureza no próprio bairro.
Pequenas mudanças de hábito ou de ambiente capazes de gerar efeitos desproporcionalmente positivos também aparecem no relato sobre as câmeras térmicas que vigiaram uma turbina eólica no mar por um ano e registraram aves se aproximando mesmo no escuro.
Mais detalhes sobre a pesquisa estão disponíveis na reportagem do Phys.org.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)