Produtor aplica defensivo em dia de vento e vizinho cobra R$ 180 mil depois que plantação orgânica perde a certificação
A lavoura permaneceu de pé, mas uma consequência comercial transformou o vento daquele dia em uma cobrança capaz de alcançar várias safras.
A deriva de defensivo agrícola pode gerar um prejuízo muito maior que as plantas visivelmente atingidas. Mesmo sem destruir a lavoura, o produto levado pelo vento alcançou a área vizinha e iniciou uma cobrança de R$ 180 mil pela perda do valor comercial de orgânico e pelo impacto alegado nas próximas colheitas.
Aplicar defensivo em dia de vento comprova a culpa?
Não automaticamente. Algum movimento de ar pode ser necessário à aplicação, enquanto vento excessivo ou voltado para área sensível amplia o risco de deriva. O parâmetro correto depende da bula, do receituário agronômico, do produto, do tamanho das gotas, do equipamento e de eventuais normas estaduais.
A Lei nº 14.785/2023 atribui responsabilidade ao usuário ou prestador que atue contra o receituário, as recomendações do fabricante ou dos órgãos competentes. Direção e velocidade do vento, temperatura e umidade registradas no horário ajudam a revelar se a decisão de pulverizar foi imprudente.

A deriva pode retirar a certificação sem destruir a plantação?
Pode afetar a condição orgânica sem causar perda física total, mas a consequência não deve ser presumida. A certificadora ou o organismo de avaliação precisa analisar substância, concentração, área atingida, risco de mistura e medidas previstas no plano de manejo antes de definir segregação, comercialização convencional, suspensão ou novo período de acompanhamento.
A Portaria MAPA nº 52/2021 exige proteção contra contaminação proveniente de unidades vizinhas e permite que faixas expostas sejam comercializadas como não orgânicas. Portanto, um resíduo detectado não prova sozinho que toda a propriedade e várias safras perderam a certificação.
Quais provas conseguem ligar o produto à área vizinha?
Amostras de folhas, frutos, solo e água devem ser coletadas rapidamente, com localização, testemunhas e cadeia de custódia. O resultado precisa identificar o ingrediente ativo e ser comparado ao produto utilizado, pois outras fontes de contaminação podem ser levantadas durante a apuração.
Imagens da pulverização, estação meteorológica, receituário, nota de compra, lote, quantidade aplicada e regulagem do pulverizador ajudam a reconstruir o evento. Um agrônomo pode mapear o padrão do dano desde a divisa e verificar se sua distribuição coincide com a direção do vento.
Quatro grupos de registros sustentam a investigação:
Como verificar se a cobrança de R$ 180 mil está correta?
Pelos artigos 402 e 944 do Código Civil, a reparação considera o que efetivamente se perdeu e o que razoavelmente deixou de ser ganho, conforme a extensão do dano. O valor deve ser separado em parcelas demonstráveis:
Quem pode responder pela contaminação?
A lei prevê reparação integral e solidariedade entre os responsáveis efetivamente identificados. O aplicador e o produtor podem responder pela pulverização inadequada; uma prestadora, se contratada, entra na análise. O profissional pode ser responsabilizado por receita errada ou atuação imperita.
O fabricante não assume o prejuízo apenas porque seu produto foi usado. Sua participação exige defeito, informação incorreta ou omissão relevante. Se bula e receita eram claras e foram desobedecidas, a discussão tende a se concentrar em quem decidiu e executou a aplicação.
A falta de barreira na lavoura orgânica muda a indenização?
O plano orgânico deve prever barreiras, amortecimento ou outra proteção aprovada. A ausência dessas medidas pode ser discutida como contribuição para ampliar o dano, mas não elimina automaticamente a responsabilidade por uma nuvem de pulverização que atravessou a divisa.
Também existe dever de reduzir o próprio prejuízo. O agricultor afetado deve comunicar imediatamente a certificadora, separar lotes, preservar amostras e verificar se somente a bordadura precisa perder a classificação. Continuar misturando produtos após conhecer o risco pode aumentar indevidamente a cobrança.
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Como o conflito pode ser resolvido antes da próxima aplicação?
Uma perícia conjunta pode definir área atingida, origem do resíduo e duração da restrição comercial. O acordo pode incluir pagamento da diferença de preço, exames, recuperação e protocolo futuro com aviso prévio, faixa sem pulverização e monitoramento meteorológico.
Sem consenso, a prova deve ser preservada para ação indenizatória e eventual fiscalização. Assistência agronômica e jurídica rural ajuda a distinguir uma certificação realmente perdida de uma estimativa ampla construída sobre várias colheitas ainda incertas.
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