O Mediterrâneo está mudando até no fundo e a água fica mais quente e salgada em ritmo cada vez mais rápido
Medições de 1950 a 2025 mostram aquecimento e salinização acelerados até milhares de metros, com sinais especialmente fortes no Adriático
Uma transformação que começou nas camadas superficiais já alcança partes profundas do mar. O Mediterrâneo profundo está aquecendo e ficando mais salgado, e novas medições indicam que a velocidade dessa mudança também aumenta. Uma análise de observações realizadas entre 1950 e 2025 encontrou sinais coerentes até milhares de metros de profundidade, com destaque para o Adriático.
Como o Mediterrâneo profundo está mudando desde 1950?
Os pesquisadores combinaram perfis oceanográficos históricos, medições de navios, dados de flutuadores Argo e observações regionais. O conjunto cobre 12 grandes setores do Mediterrâneo e permitiu comparar temperatura, salinidade e densidade desde a superfície até aproximadamente 4.000 metros em algumas bacias.
As anomalias recentes chegaram a cerca de 2,04 °C nos primeiros 100 metros, 1,13 °C entre 100 e 300 metros e 0,62 °C entre 300 e 1.000 metros. Mesmo entre 1.000 e 2.000 metros, a anomalia média de temperatura permaneceu detectável, em torno de 0,21 °C.
Por que os cientistas dizem que a mudança está acelerando?
O ponto central não é apenas a existência de aquecimento e salinização. Os pesquisadores ajustaram modelos estatísticos capazes de identificar se a taxa de mudança permaneceu constante ou se ganhou velocidade. Foram encontradas acelerações de temperatura que alcançam aproximadamente 0,3 °C por década ao quadrado em determinadas regiões e profundidades.
O sinal aparece em várias bacias, embora com intensidades diferentes. No Mediterrâneo central e oriental, especialmente no sistema Adriático-Jônico, as mudanças são mais pronunciadas. As análises de sensibilidade realizadas pelos autores indicaram que o padrão geral continuou aparecendo mesmo quando foram consideradas diferenças na cobertura das observações históricas.
- Dados reunidos de 1950 a 2025;
- Aquecimento detectado abaixo de 2.000 metros;
- Salinização presente em grande parte da coluna d’água;
- Aceleração mais intensa em setores do Adriático;
- Observações chegando a cerca de 4.000 metros em algumas bacias.
Este vídeo mostra como o aquecimento do Mediterrâneo já alcança diferentes profundidades.
Por que o Mediterrâneo profundo responde ao que acontece na superfície?
O Mediterrâneo profundo não está isolado da atmosfera. Em determinadas regiões, águas superficiais esfriam, ficam densas e afundam, levando consigo características de temperatura e salinidade. Convecção, mistura, circulação e transporte lateral permitem que sinais formados perto da superfície atinjam lentamente o interior da bacia.
O estudo encontrou uma zona de transição particularmente importante entre cerca de 75 e 300 metros. Nela, tendências e acelerações continuam fortes antes de se propagarem para maiores profundidades. Isso ajuda a explicar por que alterações atmosféricas persistentes podem deixar uma assinatura muito abaixo da superfície.
Por que o Adriático aparece como o principal ponto de aceleração?
O estudo publicado na Geophysical Research Letters identificou o Adriático como uma das áreas mais sensíveis. A aceleração do aquecimento ultrapassou 0,2 °C por década ao quadrado em setores superficiais e chegou a aproximadamente 0,23 °C por década ao quadrado em profundidade no sul do Adriático.
Isso ocorre porque o Adriático participa da formação de águas densas que posteriormente afundam e alimentam regiões profundas. Trabalhos anteriores já haviam registrado, perto do fundo do sul do Adriático, aumento de cerca de 0,8 °C na temperatura e 0,2 na salinidade durante aproximadamente uma década.

Até onde o Mediterrâneo profundo mostra sinais de aquecimento?
No noroeste do Mediterrâneo, os perfis analisados alcançaram aproximadamente 3.000 metros. No Jônico e no Levantino, chegaram perto de 4.000 metros. As tendências positivas de temperatura permaneceram estatisticamente detectáveis até pelo menos cerca de 3.000 metros em partes dessas regiões.
A intensidade diminui com a profundidade, mas o sinal não desaparece imediatamente. No interior profundo, tendências de aproximadamente 0,03 a 0,04 °C por década foram observadas, enquanto a salinidade também mostrou aumentos persistentes em grande parte da coluna d’água.
O que essa aceleração pode mudar na circulação do Mediterrâneo?
Temperatura e salinidade influenciam conjuntamente a densidade da água. Aquecimento tende a reduzir a densidade, enquanto aumento de salinidade pode elevá-la. Quando os dois processos mudam simultaneamente, podem alterar estratificação, mistura vertical e formação das massas densas que participam da circulação mediterrânea.
Os autores ainda não atribuem a aceleração a um único mecanismo. Fluxos de calor, evaporação, precipitação, entrada de água pelo estreito de Gibraltar e circulação interna podem contribuir. O resultado observacional mostra que a transformação está ocorrendo; determinar quanto cada processo explica exigirá estudos específicos.
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