Um golfinho encurrala peixes até eles devolverem a comida e Bubbles criou um roubo de refeição nunca detalhado em cetáceos
Vídeos registrados durante quatro anos mostram um golfinho perseguindo xaréus até a regurgitação e consumindo a refeição expelida
Nas águas rasas de Lady Elliot Island, na Grande Barreira de Corais australiana, um golfinho-nariz-de-garrafa-comum desenvolveu uma estratégia alimentar incomum. Entre 2021 e 2025, pesquisadores registraram repetidamente Bubbles perseguindo peixes até eles regurgitarem e consumindo o material expelido. O comportamento é interpretado como cleptoparasitismo, tornando-se a primeira descrição detalhada e direta desse tipo de roubo alimentar em um cetáceo.
Como Bubbles consegue fazer os peixes devolverem o alimento?
Bubbles é um macho adulto de Tursiops truncatus conhecido pelos funcionários de Lady Elliot Island desde pelo menos 2017. Durante as observações, ele se aproximava de cardumes de xaréus-de-olho-grande, Caranx sexfasciatus, e parecia selecionar um indivíduo específico antes de iniciar a perseguição.
O golfinho acelerava, acompanhava as mudanças de direção do peixe e continuava perseguindo-o até ocorrer a regurgitação. Em seguida, Bubbles consumia a presa ou os restos recém-expelidos enquanto o xaréu escapava. Ele não foi observado capturando diretamente os próprios xaréus durante essas sequências.
O que os 11 episódios de cleptoparasitismo mostraram?
Entre junho de 2021 e outubro de 2025, os pesquisadores documentaram 20 eventos de forrageamento envolvendo Bubbles e cardumes de C. sexfasciatus. Em 11 deles, a sequência terminou com um peixe regurgitando e o golfinho consumindo o alimento. Fotoidentificação confirmou que todos os episódios envolviam o mesmo macho.
Marcas permanentes permitiram reconhecê-lo ao longo dos anos, incluindo entalhes na nadadeira dorsal e uma cicatriz em forma de V no lado direito. Em algumas ocasiões, Bubbles repetiu a estratégia várias vezes durante uma mesma sessão, chegando a realizar até dez perseguições em cerca de 30 minutos.
- 20 eventos de forrageamento documentados;
- 11 terminaram com alimentação;
- Todos envolveram o mesmo golfinho;
- Apenas Caranx sexfasciatus foi perseguido dessa maneira;
- A técnica foi registrada durante vários anos.
Este vídeo oficial da pesquisa mostra Bubbles executando diretamente o comportamento descrito no estudo.
Como os pesquisadores sabem que não era apenas uma perseguição comum?
Durante os episódios bem-sucedidos, Bubbles parecia manter atenção sobre um peixe específico mesmo quando outros integrantes do cardume estavam próximos. Quando precisava subir para respirar, observações indicaram que retomava a perseguição do indivíduo que vinha acompanhando anteriormente.
A sequência repetida também chamou atenção: localizar, selecionar, perseguir, provocar a regurgitação e ingerir o material. Ainda assim, os pesquisadores mantêm cautela sobre intenção. As observações sustentam uma estratégia recorrente, mas não demonstram diretamente o que o golfinho compreende sobre o conteúdo do estômago do peixe.
Por que esse cleptoparasitismo é considerado tão incomum em cetáceos?
O estudo publicado na Ecology and Evolution descreve os registros como a primeira evidência direta e detalhada desse comportamento em um cetáceo. Relatos anteriores envolvendo baleias sugeriram possíveis roubos de alimento, mas não documentaram claramente o agressor ingerindo aquilo que havia sido regurgitado.
Cleptoparasitismo ocorre em diferentes grupos animais e significa obter alimento capturado ou adquirido por outro indivíduo. No caso de Bubbles, existe uma particularidade: ele aparentemente provoca a perda da refeição ao perseguir o próprio animal que a ingeriu, em vez de simplesmente aproveitar comida abandonada.

Os sons de Bubbles participam do cleptoparasitismo?
As gravações mostraram sequências intensas de cliques de ecolocalização e vocalizações tonais de baixa frequência durante as perseguições. Os cientistas consideram possível que a ecolocalização ajude Bubbles a avaliar os peixes ou acompanhar seus movimentos com precisão.
Outra hipótese é que perseguição e sons contribuam para aumentar o estresse do xaréu e favorecer a regurgitação. Isso ainda não foi demonstrado experimentalmente. Também não está confirmado que Bubbles consiga identificar quais indivíduos acabaram de se alimentar apenas usando ecolocalização.
Bubbles inventou sozinho essa estratégia alimentar?
Não há dados suficientes para responder. Como apenas um indivíduo foi confirmado praticando a técnica, ela pode representar uma inovação individual aprendida por tentativa e experiência. Também é possível que comportamentos semelhantes existam em outros golfinhos e simplesmente sejam difíceis de observar debaixo d’água.
Os autores sugerem ainda que roubar alimento dessa maneira talvez economize energia em comparação com perseguir e capturar presas rápidas, especialmente porque Bubbles costuma forragear sozinho. Essa vantagem continua sendo hipótese: medir o verdadeiro custo energético será necessário para saber por que a estratégia persiste.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)