Milhões de mexilhões chegaram escondidos em navios e agora avançam por rios sul-americanos alterando estruturas e ecossistemas
Introduzido em 1991, molusco asiático se espalhou por grandes bacias hidrográficas e provoca danos em ecossistemas, hidrelétricas e sistemas de abastecimento
O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), molusco originário da Ásia, chegou à América do Sul em 1991, provavelmente transportado na água de lastro de navios comerciais. Desde então, espalhou-se por grandes bacias hidrográficas, formando colônias que modificam ecossistemas aquáticos e provocam prejuízos em hidrelétricas, tubulações e sistemas de abastecimento.
Como o mexilhão-dourado chegou à América do Sul escondido em navios?
A primeira identificação ocorreu em 1991, nas margens do Rio da Prata, na Argentina. Pesquisadores associaram a introdução ao comércio marítimo internacional, especialmente às embarcações provenientes da Ásia. Esses navios transportam água de lastro em tanques internos para garantir estabilidade durante as viagens.
Quando essa água é descartada nos portos, organismos microscópicos podem ser liberados em ambientes distantes de sua origem. Foi provavelmente assim que larvas do mexilhão chegaram ao continente. Posteriormente, a espécie avançou pelos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, acompanhando rotas de navegação e conexões naturais entre ambientes aquáticos.
Por que o mexilhão-dourado conseguiu se espalhar tão rapidamente pelos rios?
A expansão ocorre principalmente durante a fase larval, quando os organismos permanecem suspensos na água e são transportados pelas correntes. Como são praticamente invisíveis a olho nu, podem viajar em tanques, motores de embarcações, equipamentos de pesca e recipientes contendo água contaminada.
A espécie reúne características biológicas que favorecem sua colonização em ambientes diferentes. Entre os mecanismos envolvidos na invasão estão:
- Larvas microscópicas transportadas passivamente pelas correntes;
- Reprodução elevada, favorecendo o crescimento das populações;
- Fixação em pedras, embarcações e estruturas artificiais;
- Formação de agrupamentos densos sobre superfícies submersas;
- Transporte acidental entre rios por atividades humanas.
Um vídeo explicativo produzido para uma campanha científica sobre o genoma do mexilhão-dourado, em 2013, apresenta o problema da invasão e os desafios de controlar a espécie.
Como o mexilhão-dourado consegue se prender em superfícies e formar colônias?
Após o desenvolvimento larval, o molusco procura superfícies sólidas para completar seu crescimento. A fixação ocorre por meio do bisso, conjunto de filamentos resistentes produzidos pelo animal. Essa estrutura permite sua aderência a rochas, conchas, tubulações metálicas e estruturas de concreto.
Os indivíduos podem formar aglomerados extremamente densos. Como são filtradores, retiram da água partículas orgânicas e organismos microscópicos, incluindo fitoplâncton. Em grandes concentrações, essa atividade modifica a disponibilidade de alimento, a transparência da água e as relações ecológicas entre espécies nativas.
O que os estudos científicos revelaram sobre a invasão do mexilhão-dourado?
Os pesquisadores M. A. Pessotto e M. G. Nogueira investigaram a distribuição das larvas na Bacia do Prata. O estudo publicado na Brazilian Journal of Biology, em 2018, analisou rios e reservatórios utilizando redes de plâncton com malhas de 68 micrômetros, associando os resultados às condições ambientais.
As amostragens identificaram larvas até aproximadamente 2.000 quilômetros ao norte da região de introdução, com concentrações superiores a 10 mil indivíduos por metro cúbico em diferentes sub-bacias. Os resultados demonstraram ampla dispersão, enquanto temperatura, oxigênio e características da água influenciaram a distribuição registrada.

Quais prejuízos o mexilhão-dourado provoca em hidrelétricas e ecossistemas?
O crescimento das colônias compromete sistemas de captação e circulação de água. Mexilhões acumulados podem obstruir tubulações, reduzir vazões e exigir intervenções frequentes de manutenção. Em ambientes naturais, também alteram comunidades de invertebrados e a disponibilidade de partículas alimentares.
A dimensão do problema aparece em registros históricos de invasão e pesquisas sobre densidade populacional. Os valores representam levantamentos específicos, não estimativas uniformes para todos os rios sul-americanos.
| Indicador | Registro |
|---|---|
| Primeira ocorrência sul-americana | Argentina, 1991 |
| Registro no Pantanal | 1998 |
| Distância de dispersão estudada | Cerca de 2.000 km |
| Densidade larval registrada | Mais de 10.000 larvas/m³ |
O avanço do mexilhão-dourado ainda pode ser controlado nos rios brasileiros?
A prevenção representa uma das principais estratégias contra novas introduções. O Ibama recomenda cuidados com embarcações, equipamentos de pesca e transporte de água entre reservatórios. Limpeza adequada, inspeção e monitoramento de larvas ajudam a reduzir o risco de transportar organismos para áreas ainda não contaminadas.
Eliminar populações estabelecidas, entretanto, permanece um desafio. Métodos físicos e químicos apresentam limitações operacionais e ambientais, especialmente quando podem afetar outras espécies. Pesquisadores investigam alternativas biotecnológicas, mas a proteção das bacias ainda depende de vigilância contínua e medidas capazes de interromper novas rotas de dispersão.
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