Depois de décadas sem ver a espécie na propriedade, família encontra pegadas grandes perto do córrego e uma câmera registra o animal caminhando pelo mesmo caminho usado pelo gado
Matas recuperadas e conexões entre fragmentos podem devolver rotas de passagem a grandes animais que haviam desaparecido de uma região.
Em uma propriedade rural com vegetação voltando a ocupar margens de córregos e áreas antes abertas, pegadas grandes podem ser o primeiro sinal de uma mudança silenciosa. O cenário é compatível com o retorno da onça-pintada, um animal que percorre grandes distâncias e depende de áreas naturais conectadas para se deslocar.
Por que uma espécie pode reaparecer depois de décadas?
Grandes animais podem desaparecer localmente quando a mata é fragmentada, as presas diminuem ou a circulação entre áreas naturais fica difícil. Se parte da vegetação se recupera, antigos caminhos podem voltar a oferecer cobertura, água e condições para a passagem da fauna.
Isso não significa que apenas algumas árvores novas sejam suficientes. O retorno da onça-pintada depende de uma paisagem mais ampla, formada por matas preservadas, áreas de recuperação, cursos d’água e conexões capazes de ligar diferentes fragmentos.

Por que as pegadas costumam aparecer perto de córregos?
Margens de rios e córregos podem funcionar como corredores naturais. A vegetação ciliar oferece sombra, cobertura e acesso à água, além de formar faixas contínuas que permitem aos animais atravessar propriedades sem precisar permanecer durante muito tempo em áreas completamente abertas.
Uma pegada grande, porém, não confirma sozinha uma espécie. Formato da almofada, posição dos dedos, medidas e presença de outras marcas precisam ser observados. Câmeras automáticas ajudam a transformar um vestígio suspeito em um registro muito mais confiável.
Alguns sinais podem indicar que um grande mamífero está usando a área:
Uma onça pode usar a mesma trilha percorrida pelo gado?
Pode. Trilhas abertas por animais domésticos, estradas rurais e caminhos entre fragmentos oferecem deslocamento mais fácil do que uma vegetação muito fechada. Grandes felinos podem aproveitar essas rotas sem que isso signifique interesse específico pelo rebanho.
A onça-pintada consegue percorrer grandes áreas e utilizar diferentes ambientes durante seus movimentos. Uma câmera posicionada em um caminho do gado, portanto, também pode registrar espécies silvestres quando pessoas e animais domésticos não estão passando pelo local.
A recuperação da vegetação realmente pode favorecer o retorno?
Um caso documentado ocorreu em Sinop, Mato Grosso. Em julho de 2017, uma armadilha fotográfica instalada em um experimento de restauração de reserva legal registrou uma onça-pintada em área de reflorestamento da Embrapa Agrossilvipastoril.
Antes da fotografia, pegadas do felino já haviam sido observadas no local. O registro feito pela Embrapa mostrou como áreas em recuperação podem entrar novamente nas rotas utilizadas pela fauna quando existe vegetação natural no entorno.
Um único registro significa que a espécie voltou definitivamente?
Não. Fotografar um animal comprova que ele esteve naquele ponto, mas não mostra automaticamente que existe uma população estabelecida. O indivíduo pode apenas estar atravessando a propriedade durante um deslocamento entre dois fragmentos maiores de vegetação.
Confirmar recuperação exige monitoramento por períodos mais longos. Registros de diferentes indivíduos, repetição das imagens e, principalmente, presença de fêmeas e filhotes oferecem evidências muito mais fortes de que a região voltou a sustentar uma população.
O que fazer quando um grande felino volta a aparecer?
A recomendação é manter distância e não tentar seguir, alimentar ou atrair o animal para fotografá-lo. Cães, galinhas e outras criações vulneráveis podem exigir proteção adicional, principalmente durante a noite, enquanto registros recorrentes podem ser comunicados aos órgãos ambientais da região.
O reaparecimento também mostra por que recuperar pequenos trechos de vegetação pode ter importância além dos limites de uma única propriedade. Quando matas ciliares e fragmentos naturais permanecem conectados, animais conseguem encontrar novas rotas e voltar a lugares dos quais haviam desaparecido.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)