A galáxia fantasma quase invisível que pode ter mais de 99,9% de matéria escura e intriga os astrônomos
Novas imagens do Hubble reacenderam o debate sobre uma galáxia ultradifusa que pode estar entre as mais dominadas por matéria escura
A centenas de milhões de anos-luz, uma estrutura enorme emite tão pouca luz que quase desaparece contra o fundo do Universo. A Dragonfly 44 é uma galáxia ultradifusa cuja pequena população de estrelas parece ocupar um halo de matéria muito maior, tornando-a um laboratório incomum para investigar matéria escura.
Por que a Dragonfly 44 parece uma galáxia fantasma?
Dragonfly 44 pertence ao aglomerado de Coma, a aproximadamente 100 megaparsecs da Terra. Apesar de possuir um raio efetivo de vários quiloparsecs, sua massa estelar é de apenas cerca de 300 milhões de massas solares, extremamente pequena quando comparada à quantidade de estrelas presente na Via Láctea.
Ela pertence à classe das galáxias ultradifusas, objetos grandes em extensão, mas com brilho superficial muito baixo. Por isso, compará-la a uma “Via Láctea escura” ajuda a transmitir sua aparência, embora as medições modernas não indiquem que ela simplesmente seja uma cópia da nossa galáxia com quase todas as estrelas ausentes.
Como os astrônomos descobriram tanta matéria escura na Dragonfly 44?
A matéria escura não emite luz detectável diretamente. Para inferir sua presença, astrônomos estudam os movimentos das estrelas e outros componentes ligados gravitacionalmente à galáxia. Se esses objetos se movimentam rápido demais para serem mantidos apenas pela massa visível, deve existir massa adicional produzindo gravidade.
Entre as principais pistas investigadas estão.
- Velocidade das estrelas dentro da galáxia.
- Número e distribuição de aglomerados globulares.
- Massa estelar comparada à massa gravitacional inferida.
- Ausência ou presença de gás quente detectável em raios X.
- Distribuição da matéria necessária para manter o sistema unido.
O vídeo abaixo apresenta Dragonfly 44 e explica por que essa galáxia se tornou um dos exemplos mais conhecidos de sistemas dominados por matéria escura, além de abordar a grande diferença entre aquilo que conseguimos enxergar e a massa inferida pelos astrônomos.
A estimativa de 99,99% de matéria escura estava realmente correta?
Em 2016, um estudo estimou que Dragonfly 44 poderia possuir um halo próximo de um trilhão de massas solares. Com tão poucas estrelas, isso levou à famosa afirmação de que aproximadamente 99,99% de sua massa seria matéria escura. Medições posteriores, porém, reduziram consideravelmente essa estimativa de massa total.
Em 2019, novas medições cinemáticas indicaram um halo da ordem de 10¹¹ massas solares, enquanto trabalhos de 2020 e 2021 argumentaram que a galáxia poderia ser mais semelhante a uma anã ultradifusa comum. Assim, durante anos, a interpretação de uma “Via Láctea escura” permaneceu fortemente contestada.
Por que a Dragonfly 44 voltou a surpreender os cientistas em 2026?
Uma nova análise divulgada em julho de 2026 utilizou imagens ultraprofundas do telescópio Hubble e encontrou aproximadamente 78 aglomerados globulares associados à galáxia, muito acima dos cerca de 20 apontados por uma análise anterior. Os autores inferiram um halo de aproximadamente 10^11,6 massas solares.
O novo estudo sobre Dragonfly 44 conclui que sua fração de matéria escura pode superar 99,9%, recolocando-a entre as galáxias mais dominadas por matéria escura conhecidas. O resultado, entretanto, foi divulgado como preprint e ainda precisa passar pelo processo completo de revisão científica e confronto com análises independentes.
Como uma galáxia pode ser enorme e ainda possuir tão poucas estrelas?
Uma das hipóteses é que Dragonfly 44 tenha acumulado um halo relativamente massivo muito cedo, mas não tenha transformado a quantidade esperada de gás em estrelas. Esse cenário deu origem à expressão “galáxia fracassada”, usada para sistemas que formaram uma grande estrutura gravitacional sem desenvolver uma população estelar proporcional.
O problema é que os próprios autores do trabalho de 2026 reconhecem que os modelos atuais ainda não reproduzem satisfatoriamente toda essa combinação. Portanto, Dragonfly 44 não fornece apenas uma possível janela para a matéria escura, mas também testa as teorias que tentam explicar como galáxias nascem e evoluem.

Essa galáxia pode revelar de que partícula a matéria escura é feita?
Ainda não diretamente. Medir a distribuição gravitacional da matéria escura ajuda a testar modelos sobre seu comportamento, mas não identifica automaticamente qual partícula microscópica constitui essa matéria invisível. Esse continua sendo um dos grandes problemas em aberto da física moderna.
O valor científico de Dragonfly 44 está justamente em oferecer um ambiente no qual as estrelas representam uma parcela muito pequena da massa total. Se a estimativa mais recente resistir a novas observações, os astrônomos terão um sistema excepcionalmente limpo para estudar como um grande halo escuro influencia a formação e a dinâmica de uma galáxia.
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