Brasil ganha destaque entre emergentes
Relatório da Allianz mostra por que mercados emergentes resistiram à guerra no Irã e destaca avanços estruturais do Brasil
Em um mundo cada vez mais fragmentado geopoliticamente, os mercados emergentes (EMs) demonstraram uma resiliência incomum diante do choque provocado pela guerra no Irã. Essa mudança reflete transformações estruturais que vêm alterando a forma como os investidores avaliam esses países, incluindo casos como o Brasil.
É o que aponta o relatório “Emerging Markets in a Fragmented World: From Geography to Resilience — the 4Rs Framework”, publicado em 8 de junho de 2026 pela Allianz Research.
O documento introduz um novo arcabouço analítico composto por quatro dimensões estruturais: Posição de Recursos, Força de Reservas, Credibilidade da Taxa e Estrutura de Refinanciamento.
Segundo os autores, esses fatores explicam a diferenciação entre países de forma mais eficaz do que a tradicional divisão entre mercados emergentes e desenvolvidos.
O ponto de partida do estudo é a reação internacional à guerra no Irã. O conflito marcou o primeiro grande choque do petróleo que não desencadeou uma liquidação generalizada de ativos de mercados emergentes.
Em episódios anteriores de magnitude similar, haveria uma venda mecânica de ativos de EMs em favor de portos seguros do mundo desenvolvido. Dessa vez, a linha divisória correu pela exposição energética, separando importadores de exportadores de energia, e não pela tradicional divisão entre países emergentes e desenvolvidos.
O Brasil se enquadra na segunda categoria e tende a se beneficiar desse cenário. Como exportador relevante de commodities, o país está entre os emergentes menos vulneráveis a choques energéticos do que grandes importadores de petróleo.
Além disso, o relatório cita o Brasil como exemplo de fortalecimento da credibilidade monetária. Frequentemente apontado como um teste para a independência dos bancos centrais emergentes devido às pressões políticas, o país demonstrou capacidade de manter a condução da política monetária. Segundo os autores, a retomada do ciclo de alta de juros em setembro de 2024 reforçou essa percepção.
Outro avanço estrutural importante é a redução da dívida em moeda estrangeira. Brasil, México, Índia e Indonésia reduziram suas parcelas de dívida em moeda estrangeira em 20 a 40%, financiando-se predominantemente em moeda doméstica. Com isso, a depreciação cambial tornou-se um mecanismo de ajuste macroeconômico, e não mais um gatilho de solvência.
No plano mundial, o relatório aponta que as economias emergentes e em desenvolvimento já respondem por aproximadamente 60% do PIB mundial em paridade de poder de compra, ante cerca de 40% em 2000.
Ao mesmo tempo, os bancos centrais dos mercados emergentes elevaram suas taxas em uma média de 780 pontos-base durante o ciclo pós-pandemia, contra cerca de 400 pontos dos países avançados, demonstrando disposição para priorizar a estabilidade de preços mesmo em contextos adversos.
Para os investidores, a implicação é direta. Em um cenário de escalada do conflito, os spreads de dívida em moeda forte dos EMs subiriam de 178 pontos-base para cerca de 235 pontos, com pico próximo a 280, movimento modesto frente ao alargamento de quase 700 pontos registrado durante a Covid-19.
O relatório conclui que a fronteira entre emergentes e desenvolvidos segue se dissolvendo. Em seu lugar, ganham importância fatores como credibilidade monetária, posição externa e estrutura de financiamento. Nesse contexto, ainda que nem tudo esteja muito bem por aqui, o Brasil aparece como um dos exemplos de fortalecimento institucional entre os mercados emergentes.
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