Ouvir é… ler? Debate em Londres questiona fronteiras do livro
Painel na London Book Fair reúne especialistas para discutir o papel dos audiolivros no mercado editorial e seus efeitos cognitivos e sociais
O crescimento do mercado de audiolivros voltou a provocar uma pergunta que divide o setor: quem ouve um livro pode ser chamado de leitor? O tema foi debatido na London Book Fair, feira que ocorre anualmente em Londres, reunindo editores, pesquisadores e executivos do setor.
O painel “The Great Audiobook Debate” (“O Grande Debate do Audiolivro”) foi mediado por Christopher Kenneally, apresentador do podcast The Spoken World.
Entre os participantes estavam Richard Lennon, da Penguin Random House UK; a pesquisadora Dra. Carina Spaulding, da The Reading Agency; Luis González Martín, da Fundação GSR; Marc Boutet, da De Marque; e Javier Celaya, da Dosdoce.com.
Cérebro e mercado
A questão pode parecer filosófica, mas tem base científica. González Martín apresentou pesquisas realizadas pela Fundação GSR, sobre o que ocorre no cérebro durante a leitura e durante a escuta. Segundo ele, as atividades cognitivas envolvidas nos dois processos são distintas: “Ouvir é um ato natural, ler não. O cérebro se transforma à medida que lemos. A leitura é definida pelo que o cérebro faz, não pela história que recebe”.
Por conta dessa diferença, parte dos consumidores de audiolivros não se identifica como leitores. Pesquisas internas da Penguin Random House UK, apresentadas por Lennon, apontam esse padrão. Ainda assim, a editora direciona seus esforços para que a versão em áudio seja fiel à narrativa pretendida pelo autor — de modo que leitores e ouvintes tenham experiências comparáveis.
Para Lennon, a autoclassificação do público é secundária: “Você não precisa se ver como leitor para gostar de livros”.
Celaya situou o debate no contexto do mercado: “Estamos aqui na London Book Fair para comprar e vender direitos. A única área do setor com crescimento de dois dígitos é o áudio. Não temos esse debate quando falamos de mangá”.
Solidão, acesso e coexistência entre formatos
A pesquisadora Spaulding trouxe dados do estudo conduzido pela The Reading Agency que associam a leitura ao combate à solidão. Segundo o levantamento, 19% dos leitores afirmam que a leitura os impede de se sentir solitários.
Para adultos e crianças com dificuldades na leitura de texto, os audiolivros representam uma forma de acesso a esse mesmo benefício, além de contribuir para o desenvolvimento da habilidade leitora por meio da chamada leitura por imersão — modalidade que combina texto e áudio simultaneamente.
Boutet lembrou que a narrativa oral antecede a escrita: “Os audiolivros vieram primeiro”. O argumento serve para contextualizar historicamente o formato e questionar a hierarquia implícita no debate.
O painel não chegou a uma resposta definitiva sobre se ouvir equivale a ler. O que ficou estabelecido é que o audiolivro amplia o alcance da leitura, atende a públicos que conciliam o consumo literário com outras atividades e não deve substituir o texto escrito — mas pode coexistir com ele.
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