Atração de primatas por cristais aponta raízes humanas da abstração
Estudo com chimpanzés e registros arqueológicos de 780 mil anos sugerem que formas geométricas e transparência moldaram a cognição de hominídeos
Chimpanzés em cativeiro demonstraram preferência por cristais em detrimento de outras pedras, segundo experimentos realizados em 2021 no Centro de Resgate de Primatas de Rainfer, em Madri, e publicados neste mês de março, na revista científica Frontiers.
A pesquisa foi coordenada pelo geólogo Juan Manuel García Ruiz, do Donostia International Physics Center (DIPC), e contou com a participação da psicóloga e antropóloga Irene Delval, pesquisadora do Behavior, Evolution, and Sexuality Lab do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
O que os experimentos revelaram
O estudo envolveu nove chimpanzés divididos em dois grupos — Manuela e Gombe — alojados em áreas externas de até 1,5 km, monitoradas por câmeras de vigilância e observação direta. No primeiro experimento, os pesquisadores instalaram dois pedestais idênticos, cada um sustentando um objeto de cerca de 34 centímetros: um cristal de quartzo transparente e uma pedra de arenito.
Os cinco integrantes do grupo Manuela tentaram retirar o cristal do pedestal. A fêmea alfa, Manuela, conseguiu removê-lo e, em seguida, o levou para uma plataforma de madeira, onde interagiu com o mineral. O chimpanzé Yvan, por sua vez, carregou o quartzo para dentro do dormitório do grupo, onde o objeto ficou por dois dias. A devolução exigiu negociação com os cuidadores, que ofereceram bananas e iogurte em troca do cristal.
O arenito, por contraste, foi retirado do pedestal apenas por Yvan, que o deixou no chão após carregá-lo por cerca de 10 metros. Nenhum dos animais dedicou mais de dois minutos ao exame da pedra comum.
No segundo experimento, os chimpanzés do grupo Manuela receberam uma mistura de pedras variadas e cristais. Os animais selecionaram os cristais e deixaram as demais pedras no gramado.
Um dos chimpanzés, Guillermo, colocou os minerais na boca para transportá-los. “Os chimpanzés geralmente não carregam objetos na boca”, observou Ruiz, sugerindo que esse comportamento indica valor atribuído ao item.
O chimpanzé Yvan foi registrado examinando um cristal de 3,5 cm por mais de 15 minutos, com o mineral a poucos centímetros dos olhos. A equipe médica do santuário descartou problemas de visão. “Ele estava conseguindo enxergar através do cristal e estava curioso para ver o que tinha lá dentro”, relatou Irene Delval ao Jornal da USP.
No grupo Gombe, a fêmea Sandy recolheu todos os itens disponíveis e, ao fim do dia, organizou dois conjuntos separados: um com pedras comuns e outro exclusivamente com cristais — independentemente do grau de transparência. Para os pesquisadores, a separação indica reconhecimento da geometria singular dos minerais, e não apenas de sua aparência visual imediata.
Raízes de 780 mil anos
O ponto de partida da pesquisa foram registros arqueológicos do Pleistoceno, datados de quase 800 mil anos. Cristais encontrados em sítios de ocupação humana desse período não apresentavam marcas de uso como ferramentas, armas ou adornos — o que levou os pesquisadores a considerar que eram coletados por outro motivo.
“Estudos arqueológicos mostram que o Homo erectus coletava cristais, assim como os neandertais e o Homo sapiens, posteriormente. Nossos experimentos demonstram que a mente de outros hominídeos, os chimpanzés, também é capaz de distinguir e apreciar as propriedades dos cristais”, afirmou García Ruiz.
Os pesquisadores apontam duas propriedades que podem explicar a atração: a transparência em objetos sólidos — fenômeno que, no ambiente natural, só é observado na água — e a geometria dos cristais, marcada por linhas retas e superfícies planas, características raras na natureza.
Essa combinação teria estimulado, segundo a hipótese dos autores, formas de percepção que vão além do ambiente imediato.
Para Irene Delval, a questão ainda não está resolvida: “Para alguns pesquisadores, o colecionismo de objetos singulares sem aparente utilidade pode ter relação com a ideia de que esses objetos têm propriedades mágicas, que podem ter poderes além da vida. Mas, além desse pensamento simbólico e dessa mística, pode ser que simplesmente as características físicas dos objetos chamem a atenção de um jeito diferenciado dos outros objetos”, disse a pesquisadora.
A próxima etapa prevista pela equipe é adaptar os experimentos a animais em vida livre, para verificar se o comportamento observado em cativeiro se reproduz fora desse contexto. O objetivo, segundo os pesquisadores, é confirmar que a única “vibração” emanada pelos cristais é de ordem estética — sem respaldo científico para as afirmações de propriedades energéticas ou curativas frequentemente associadas a esses minerais, em especial ao quartzo.
“Agora sabemos que esses objetos euclidianos únicos nos cativaram há 800 mil anos e podem ter influenciado nossa compreensão do mundo mais do que imaginávamos”, concluiu García Ruiz.
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