Maristela Basso na Crusoé: O momento de parar
Quando o limite deixa de vir de fora
Há uma pergunta que acompanha toda a vida humana.
Na infância, ela aparece de forma quase inocente: até onde posso ir?
A criança experimenta o mundo justamente porque alguém existe para lhe dizer “não”.
Pais, professores e, mais tarde, a própria lei, funcionam como os primeiros guardiões do limite. É assim que aprendemos que viver em sociedade exige renúncias.
Mas algo curioso acontece quando nos tornamos adultos.
Continuamos esperando que alguém nos pare.
O empresário pergunta até onde pode explorar uma brecha na legislação.
O político pergunta até onde pode tensionar as instituições.
O agente público pergunta até onde pode usar o cargo em benefício próprio.
O criminoso pergunta até onde pode ir sem ser descoberto.
Todos fazem, no fundo, a mesma pergunta: quem será capaz de me impedir?
Essa talvez seja a grande ilusão do nosso tempo.
Acreditamos que a ética depende da existência de um fiscal.
Como se a única razão para não ultrapassar determinados limites fosse o medo da punição.
Mas nenhuma civilização se sustenta apenas sobre a vigilância.
O Direito é indispensável. As instituições também.
Entretanto, existe um limite que nenhuma lei consegue impor.
É aquele que nasce quando o próprio sujeito decide interromper o movimento.
Quando diz a si mesmo: “Posso continuar. Mas escolho parar”.
Esse é um momento decisivo da vida humana.
É quando o limite deixa de vir de fora.
Na tradição psicanalítica, Jacques Lacan mostrou que a Lei não é apenas um conjunto de normas jurídicas.
É também uma referência simbólica que estrutura o desejo e torna possível a convivência.
Enquanto permanecemos dependentes apenas da proibição externa, continuamos perguntando quanto ainda podemos avançar antes de sermos detidos.
A verdadeira maturidade começa quando essa pergunta perde importância.
Porque o sujeito já não espera ser impedido.
Ele próprio reconhece que chegou o momento de parar…
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