Dennys Xavier na Crusoé: O argumento da intimidação
Quando sustentar determinada ideia é visto como indício de falha moral ou intelectual, pessoas passam a se preocupar mais com ser aceitas do que com a verdade
Em um sem-número de debates públicos, entrevistas, salas de aula e conversas aparentemente informais, costuma emergir um tipo de recurso retórico que com dificuldade se deixa entrever como aquilo que realmente é. Ele surge travestido de argumento legítimo, sólido, mas funciona como coação psicológica, uma espécie de pressão social geralmente conduzida com maestria. Um recurso que em vez de responder a tema de diálogo, cria um ambiente em que certas ideias passam a parecer socialmente arriscadas demais para serem sustentadas em voz alta. Ayn Rand — célebre autora de A revolta de Atlas, entre outros — chamou esse procedimento de argumento da intimidação, observando que seu efeito não consiste em refutar uma posição, mas em tornar desconfortável a própria tentativa de sustentá-la.
A situação costuma ser familiar. Todos nós a enfrentamos em algum momento.
Alguém levanta uma hipótese, menciona uma discordância ou tenta examinar um consenso estabelecido. A resposta não vem na forma de explicação, dados ou contraexemplo. Surge como um comentário lateral, uma ironia discreta acompanhada de um sorrisinho sarcástico, uma observação vaga sobre o quanto aquela posição já estaria superada ou seria típica de pessoas pouco informadas. O centro da conversa deixa de ser o tema e passa a ser quem ousou mencioná-lo. Em poucos instantes, continuar insistindo parece exigir mais energia do que a maioria está disposta a investir. A vitória do deuteragonista foi garantida sem luta ou resistência. A intimidação levou mais uma.
Esse tipo de reação não procura convencer diretamente. Seu efeito principal é reduzir o espaço da conversa antes mesmo que ela se desenvolva. Funciona como um aviso indireto de que certos caminhos intelectuais já teriam sido abandonados por pessoas razoáveis, embora ninguém explique exatamente quando isso aconteceu ou a razão de ser de tal abandono. A discussão segue adiante com menos perguntas do que poderia ter tido, sem exame, sem reflexão, e a concordância surge como espontânea e desejável.
Rand observou que esse procedimento costuma ser confundido com o ataque pessoal clássico, o chamado ad hominem. A diferença, no entanto, aparece logo no início do movimento. No ataque pessoal, tenta-se enfraquecer o argumento atingindo o caráter do interlocutor. No argumento da intimidação…
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