Usina de crises
O relatório da reforma da Previdência vinha recebendo elogios. Mas Paulo Guedes não gostou do resultado. Nascia, então, mais uma crise entre os poderes executivo e legislativo.
É importante [esclarecer] que os deputados, se aprovarem a reforma do relator, que são 860 bilhões de reais de corte, abortaram a nova Previdência. Mostraram que não há compromisso com as futuras gerações. O compromisso com os servidores públicos do Legislativo parece maior do que das futuras gerações. Paulo GuedesFazendo com que o dólar disparasse, Guedes alegou que a proposta original fora por demais desidratada. Que o piso aceitável seria, de fato, o trilhão de reais.
Houve um recuo que pode abortar a nova Previdência. Pressões corporativas e de servidores do Legislativo forçaram o relator a abrir [mão] de 30 bilhões de reais para os servidores do Legislativo que já são favorecidos no sistema normal, então recuaram na regra de transição. Como iria ficar feio recuar só nos servidores, estenderam também para o regime geral. Eu esperava que cortassem o BPC e o Rural, ficaria 1 trilhão de reais. Mas cortaram 350 bilhões de reais. Paulo GuedesO ministro contou com o apoio da liderança do Novo, que viu um corte excessivo na economia da reforma.
O importante é que a proposta vá ao plenário com chance de aprovação, claro, mas não acho que precisava ter desidratado tanto a reforma. Acho que foi longe demais. Marcel van Hattem, líder do Novo na Câmara Federal– Mas, mas… O relator da reforma da Previdência garantiu que manteve no texto apresentado a máxima economia possível. E deu a entender que a capitalização se tornou um obstáculo ao sucesso do trabalho.
A esquerda não queria de jeito nenhum. No campo do centro, havia uma divisão enorme porque as coisas não estavam claras. Nada impede o governo de enviar depois o pedido para criar o sistema, para que seja debatido na Casa com debate exclusivo. É um tema que já estava contaminando a tramitação da reforma. Samuel Moreira, relator da reforma da PrevidênciaAlex Manente esclareceu a ausência de um dos temas que mais interessava a Guedes. Segundo o deputado, a capitalização ficou de fora por falha do próprio Governo Federal.
Em primeira mão para Diego Amorim e os assinantes de O Antagonista+, o líder do Podemos na Câmara alegou que a economia atingida pelo relatório se aproxima da desejada. E que o complemento com a contribuição bancária e transferência de recursos ao BNDES está em sintonia com os desejos de Jair Bolsonaro:O governo ñ apresentou estudo sobre o impacto da capitalização na previdência. E nós, q apoiamos a reforma, tivemos q dizer ñ a essa proposta. O papel do legislativo ñ é dar cheque em branco pro governo. É analisar o impacto das propostas nas contas públicas e na vida das pessoas
— Alex Manente (@AlexManentePPS) June 15, 2019
Foi o que o presidente pediu. Guedes está contra o presidente? Ele tem agora é que trabalhar para abrir o sistema financeiro e apresentar uma proposta para a nação além de Previdência. José Nelto, líder do Podemos na Câmara FederalAécio Neves criticou o que chamou de “declarações destemperadas” de Guedes. Líderes do Centrão também deixaram claro que não gostaram. E que, aprovada a reforma, Bolsonaro há de ter dificuldades com o Congresso. Ao final do dia, o presidente da comissão uniu-se aos descontentes com o ministro da Economia.
Não nos deixaremos contaminar pela fala do ministro Paulo Guedes num momento bom da Reforma da Previdência. Sob liderança do nosso presidente Rodrigo Maia, seguiremos blindando a Reforma de mais essa crise gerada pelo governo. Marcelo Ramos, presidente da comissão da reforma da Previdência– Maia bolado Nenhuma reação, contudo, foi tão forte quanto a do presidente da Câmara. Em verdade, os líderes partidários preferiram não comentar as declarações de Guedes até que Rodrigo Maia, tido como “dono da bola“, oferecesse algum posicionamento. Em uma sequência de mensagens no Twitter, Maia chamou o governo Bolsonaro de “usina de crises“, reforçou o papel do Congresso como um poder que oferece estabilidade a uma gestão tão turbulenta, e parabenizou o trabalho de Moreira.
Pela primeira vez o Parlamento vai ser bombeiro e não incendiário. Se fossemos depender da articulação do governo, teríamos 50 votos e não os 350 que esperamos. Vamos aprovar uma reforma na ordem de R$ 900 bilhões e vou continuar trabalhando para incluir prefeitos e governadores.
— Rodrigo Maia (@RodrigoMaia) June 14, 2019
No dia seguinte, recebeu o aplauso de Fernando Henrique Cardoso, que viu em Maia uma luz no fim do túnel.Antes que esqueça. Quero agradecer aos consultores da Câmara que trabalharam com o relator @samuelmoreira. Meses de dedicação e total espírito público. Uma pena o ministro atacar servidores que ele não conhece. Aliás, o consultor Rolim está na equipe do ministro Paulo Guedes.
— Rodrigo Maia (@RodrigoMaia) June 15, 2019
Ainda no sábado, o presidente da Câmara voltou ao tema. Disse estar seguro de que a reforma será aprovada em julho. E que a capitalização pode vir a ter sucesso em um segundo momento.A troca de mensagens da Lava Jato continua. Idem a de cadeiras no governo. Por enquanto sem relação. Está difícil acertar o rumo. Sem partidos e sem governo a opinião se gruda na esperança: Maia brilha na escuridão celeste. Melhor a chama da democracia que ilusão do grande Chefe.
— Fernando Henrique Cardoso (@FHC) June 15, 2019
Quero reiterar, mais uma vez, que faremos a reforma da Previdência, porque ela é justa e vai ajudar a reduzir a pobreza e o desemprego no Brasil. Estou seguro que iremos aprová-la em julho na Câmara. #novaprevidencia #reforma #previdencia #capitalização
— Rodrigo Maia (@RodrigoMaia) June 15, 2019
– Resistência O líder do governo tentou dar um ar de naturalidade à postura de Guedes.A capitalização pode não entrar neste texto inicial, mas nada impede que seja aprovada no próximo semestre. O PDT, por exemplo, tem uma ótima proposta de capitalização, apresentada e debatida desde o período eleitoral. #novaprevidencia #reforma #previdencia #capitalização
— Rodrigo Maia (@RodrigoMaia) June 15, 2019
A expectativa da equipe econômica é economizar o máximo possível. Toda vez que houver uma redução [na economia], isso vai causar incômodo. Major Vitor Hugo, líder do governo na Câmara FederalFoi o mesmo caminho explorado pelo presidente da República.
É natural, em casa a gente briga às vezes com os filhos. Jair BolsonaroAo final do sábado, Bolsonaro devolveu a bola ao “dono”.
A bola está com o Parlamento. A nossa bancada do PSL a gente orienta de uma forma. Se perder no voto paciência, vamos respeitar. Jair BolsonaroEm podcast exclusivo aos assinantes de O Antagonista+, Diego Amorim resumiu toda a questão. E deu um conselho: “resista, previdência“. https://cdn.oantagonista.net/podcast/209043.mp3”>https://cdn.oantagonista.net/podcast/209043.mp3
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