Roberto Reis na Crusoé: A última rodada
Em vez de insistir até o fim, Lula poderia optar por deixar como herança uma sensação gostosa de amparo popular e transferir a conta
Existe uma hipótese que merece ser levada a sério.
Se Lula fizer uma autocrítica séria e concluir, nos próximos 100 dias, que sua rejeição entrou numa faixa difícil de reverter, a saída mais racional para sua biografia talvez deixe de ser a disputa eleitoral e passe a ser a despedida. Não uma saída melancólica, mas uma saída organizada, ou em uma festa de arromba. Com gesto social, emocional e eleitoral.
O ponto central está no histórico longo do Datafolha, 37 anos medindo a rejeição do petista.
A série do instituto ajuda a enquadrar o problema de Lula. Em agosto de 1989, Lula aparecia com 26% de rejeição. Em agosto de 1994, chegou a 38%. Em setembro de 1998, marcou 33%. Em setembro de 2002, 30%. Em agosto de 2006, 26%. Em setembro de 2022, 39%. Agora, na corrida de 2026, aparece com terríveis 48%.
O dado relevante não é apenas o número isolado. É a posição desse número dentro da série histórica. Esse é o maior patamar de rejeição de Lula em disputas presidenciais medido pelo instituto que tem a sequência mais longa sobre sua trajetória nacional. Em 1994, com 38%, ele perdeu com ampla margem. Em 2022, com 39%, venceu por uma diferença estreita de 1,9 ponto.
Aos 48%, a situação entra em outra categoria. Já não se trata de um desgaste administrável. Trata-se de um teto de crescimento muito baixo e de um risco alto de inviabilização e, depois, de vexame político histórico.
É aí que entram os 100 dias.
Se, nesse intervalo, Lula não conseguir reduzir de forma visível essa rejeição, ou ao menos interromper bruscamente a curva de deterioração, a candidatura passa a carregar mais custo do que utilidade para ele e para o próprio PT.
Uma rejeição nessa faixa estreita qualquer margem de erro, encarece, ou inviabiliza, maiores alianças, assusta parte dos apoiadores pragmáticos e aumenta…
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