Planalto teme narrativa bolsonarista após decisão dos EUA contra facções
Governo Lula tenta calibrar reação ao anúncio de Trump sobre PCC e CV sem parecer leniente com o crime organizado
O Palácio do Planalto foi pego de surpresa com a decisão do governo Donald Trump de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas e agora tenta calibrar a reação oficial ao anúncio feito pelos Estados Unidos.
A principal preocupação do entorno de Lula (PT) é evitar que qualquer crítica à medida americana seja interpretada como defesa de facções criminosas, justamente em um momento em que o presidente tenta endurecer o discurso contra o crime organizado.
Auxiliares do petista admitem desconforto com o impacto político da decisão e avaliam que a medida pode abrir uma nova frente de desgaste para o governo.
O primeiro integrante do governo a se manifestar foi o assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, Celso Amorim.
“A cooperação internacional é bem-vinda, mas pretexto para intervenção é inaceitável”, afirmou.
O governo Lula vinha atuando para evitar a classificação e defendia junto aos americanos o fortalecimento da cooperação policial e de inteligência no combate ao crime organizado transnacional, sem o enquadramento das facções como grupos terroristas.
No Planalto, a avaliação é que a medida adotada pelos EUA pode gerar consequências jurídicas, diplomáticas e institucionais sensíveis para o Brasil.
Integrantes do governo afirmam que a preocupação central não está relacionada às organizações criminosas em si, mas aos possíveis desdobramentos internacionais da decisão americana e aos impactos sobre a soberania nacional.
Embora reconheçam que a classificação seja uma prerrogativa legal dos Estados Unidos, auxiliares presidenciais avaliam que o gesto pode tensionar a relação bilateral e abrir espaço para consequências ainda imprevisíveis.
O anúncio foi feito nesta quinta-feira, 28, pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, poucos dias após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reunir com Trump e com o vice-presidente J.D. Vance e com o próprio Rubio, em Washington.
Em Washington, interlocutores ligados ao governo Trump já afirmavam há meses que a medida acabaria sendo adotada, assim como ocorreu com organizações criminosas de outros países.
Aliados de Lula também enxergam um componente político na ofensiva americana.
Após a divulgação das reuniões de Flávio Bolsonaro com Trump nesta semana, integrantes do entorno presidencial passaram a defender que qualquer eventual prejuízo ao Brasil decorrente da relação com os Estados Unidos — como novas tarifas comerciais ou medidas diplomáticas — seja associado politicamente ao bolsonarismo.
A avaliação de auxiliares do presidente é que a família Bolsonaro tenta estimular ações externas contra o governo brasileiro para desgastar Lula e reforçar o discurso oposicionista.
O tema da soberania nacional, inclusive, é tratado dentro do Planalto como uma das principais bandeiras políticas da atual gestão e deve ganhar espaço na estratégia eleitoral do presidente para 2026.
No ano passado, o governo Lula já havia explorado politicamente o tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, atribuindo a ofensiva comercial à atuação do deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) junto ao governo Trump.
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