Lojistas do centro de SP comemoram ruas sem Cracolândia
Comerciantes que conviveram por décadas com furtos, depredações e perda de clientes relatam mudança na rotina após esvaziamento
Mário Kamei tem 81 anos e quase quatro décadas de comércio na rua General Osório, no centro de São Paulo. Durante boa parte desse tempo, ele dividiu a calçada com a Cracolândia — a concentração de usuários de crack que por décadas marcou a região central da capital paulista e resistiu a sucessivas tentativas de dissolução.
Em maio de 2025, o Governo do Estado concluiu o esvaziamento definitivo da cena aberta. Um ano depois, Kamei resume a transformação em uma frase: “A Cracolândia acabou, não existe mais. Estamos vivendo hoje em uma rua tranquila, com muita segurança”.
Do pesadelo ao balcão cheio
A sensação descrita por Kamei é compartilhada por outros lojistas da região. Comerciantes chegaram a perder até metade do faturamento mensal nos períodos de maior concentração do fluxo de usuários.
A dinâmica era conhecida: clientes deixavam de frequentar as ruas, forçando estabelecimentos tradicionais a migrar para o comércio eletrônico. Furtos de cabos de energia e internet eram rotineiros. Erika Kamei, filha de Mário e também lojista, recorda que a loja chegou a ficar mais de duas semanas sem eletricidade, obrigando a família a abrir as portas manualmente todos os dias.
Além dos prejuízos operacionais, havia o custo da segurança. Diante de invasões e depredações, muitos comerciantes contrataram vigilância particular às próprias expensas. José Peloso Filho, que atua há 46 anos na rua dos Gusmões, teve a loja assaltada e oito motocicletas roubadas: “A gente não tinha segurança nenhuma aqui. Agora tem polícia logo na porta”, disse à Agência SP.
O que mudou — e o que ainda falta
Os dados de segurança pública confirmam a percepção dos comerciantes. O 3º DP (Campos Elíseos) e o 77º DP (Santa Cecília) registraram 881 roubos entre janeiro e março de 2026 — queda de 70% em relação às 2.905 ocorrências do mesmo período de 2023, o menor índice em 14 anos. A área chegou a concentrar cerca de 2 mil usuários de drogas antes do esvaziamento, conduzido ao longo de mais de dois anos com ações integradas de policiamento, saúde e assistência social.
O desafio agora é reconquistar o consumidor. Parte dos clientes ainda evita o centro por uma percepção de insegurança que, segundo os próprios lojistas, não corresponde mais à realidade das ruas.
Marcone Moraes, empresário, morador do centro e presidente da Associação ProCentro, observou a mudança de dentro: “Pessoas consumidas pelo tráfico de drogas passaram a ter acesso a tratamento, moradia digna, e a rede de apoio delas começou a se estabilizar novamente”.
Para o futuro, comerciantes da região acompanham com expectativa o projeto do Novo Centro Administrativo do Estado, que prevê a instalação de cerca de 22 mil servidores públicos nos Campos Elíseos — o que, esperam, pode acelerar a reativação econômica da área.
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