Clarita Maia na Crusoé: Misoginia de esquerda e direita
Juliana Garcia dos Santos, Tabata Amaral e Madeleine Lacsko não são casos isolados
Juliana Garcia dos Santos Soares sobreviveu a uma tentativa de feminicídio brutal e documentada: 61 socos desferidos pelo então namorado dentro do elevador de um condomínio em Natal (RN).
Transformou o trauma em causa, tornou-se símbolo de resistência e, ao filiar-se ao Partido dos Trabalhadores (PT) e cogitar uma candidatura, deparou-se com uma nova forma de violência: ataques misóginos virais de motivação explicitamente política.
Tabata Amaral, deputada federal com trajetória acadêmica sólida e atuação parlamentar consistente, acumula ofensivas que raramente enfrentam o mérito de suas propostas. O alvo preferido de seus detratores é outro: sua idade, seu gênero, sua história familiar.
Quando encabeçou o PL 1424/2026, proposta de criação de uma Política Nacional de Combate ao Antissemitismo subscrita por outros 45 parlamentares de 19 partidos, numa coalizão tão ampla quanto rara na Câmara, foi alvo de uma tormenta digital profundamente misógina. Nenhum dos demais signatários foi tocado pela fúria.
Madeleine Lacsko, jornalista, enfrenta ataques misóginos nas redes desde 2015. Em um dos episódios documentados pela Agência Pública, seu endereço residencial foi publicado acompanhado de comentários ameaçadores, o chamado doxxing, com o objetivo evidente de intimidá-la e silenciá-la.
O episódio mais recente ocorreu em abril de 2026: ao criticar o Projeto de Lei que criminaliza a misoginia, recebeu uma notificação oficial do X (antigo Twitter) comunicando que a deputada Erika Hilton e a Advocacia-Geral da União solicitaram a remoção de seu post, acusando-a de disseminar desinformação. O efeito foi imediato e previsível: uma nova leva de ataques pessoais.
Há um fio contínuo que atravessa as três trajetórias e merece ser enunciado sem eufemismos: os ataques misóginos contra essas mulheres surgem tanto da direita quanto da esquerda do espectro político.
A misoginia política tem algo de cultural e muito de estratégico. Cultural, porque atravessa gerações, classes e geografias sem precisar de algoritmo. Estratégico, porque silenciar mulheres no espaço público não é efeito colateral do debate. É, muitas vezes, o objetivo tácito dele.
Seria tentador atribuir essa hostilidade ao ambiente digital…
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