Vorcaro, Moraes, Gonet, Mendonça e o jornalismo de ocasião
Não se trata, aqui, de defender André Mendonça. Pelo contrário. Tenho dito e repetido que o ministro, a meu ver, não é nenhum herói
Uma fotografia de Paulo Gonet bebendo e fumando charuto com Daniel Vorcaro, em Londres, não provaria absolutamente nada. Pessoas podem beber, fumar charutos, frequentar eventos e, ocasionalmente, aparecer em fotografias ao lado de gente que, anos ou meses depois, acaba presa. Se fosse apenas isso, apesar do dano à imagem, o PGR – amigão de décadas e ex-sócio de Gilmar Mendes – não deveria responder por nada.
Só que não é apenas isso. Há mensagens, ao menos uma ligação telefônica intermediada por um advogado de Vorcaro, referências a novos encontros e uma proximidade muito menos “banal” do que a defendida pelo próprio procurador-geral da República durante a bizarra sessão de 15 de setembro no STF. Ainda assim, nada disso prova que Gonet tenha cometido algum crime. O que existe é um contexto grave. O tal “conjunto da obra”.
Foi também divulgado um vídeo mostrando Alexandre de Moraes e a mulher, Viviane Barci, desembarcando, no Rio, de uma aeronave ligada a Vorcaro. O escritório dela explicou que contratava táxi aéreo, que a escolha da aeronave cabia à empresa e que Vorcaro jamais esteve nos voos. Isoladamente, viajar em avião de alguém também não prova nada. Mas, assim como no caso de Gonet, o “conjunto da obra” é bem mais grave e extenso.
Culpa por ilação
Gonet, Moraes e os porta-vozes do “alexandrismo” na imprensa dizem que não há nada de mais. Tudo dentro da legalidade. Curiosamente, essa mesma legalidade não deu as caras nos últimos dias, quando o “suspeito” passou a ser André Mendonça. Em meio à guerra aberta no STF, uma sucessão de reportagens passou a mostrar encontros, convites, contratos e relações empresariais até então lícitas como se assim não fossem.
Uma empresa de Belo Horizonte, por exemplo, emprestou cerca de R$ 5 milhões ao Instituto Iter, fundado por Mendonça e parceiro de empresas gigantes, em 2024. O negócio foi formalizado por contrato, contabilizado e está sendo pago normalmente. A empresa, como outras, teve relações empresariais com Vorcaro em negócios inteiramente legais. Mas, para desconstruir André Mendonça, vale tudo. Não importam os métodos.
Até um clube de futebol entrou na lista de “danos colaterais” da guerra suprema. Se tem Vorcaro e Master por perto, pronto. Cedro, Atlético, Iter e sei lá quem, que se danem. Esse tipo de construção – ou narrativa – funciona porque não precisa de uma única mentira. Basta relacionar fatos verdadeiros, aproximá-los do criminoso de plantão e confiar na capacidade do leitor de concluir aquilo que a reportagem não teve elementos para escrever.
Jornalismo não é juiz
Não se trata, aqui, de defender André Mendonça. Pelo contrário. Tenho dito e repetido que o ministro, a meu ver, não é herói. Está cumprindo sua obrigação, regiamente paga pela sociedade. Nem meu Galo querido ou a Cedro, uma das mais importantes mineradoras de Minas. Há perguntas legítimas a serem respondidas por todos. A questão é outra: ou relação, fotografia, viagem e mensagem culpam todos, ou exigem cautela com todos.
Porque, se a Cedro ter feito negócios com Vorcaro transforma um empréstimo regular ao Iter em fato suspeito, é razoável perguntar – a quem isso insinua – qual tratamento deve ser dado ao procurador-geral bebendo e fumando com o ex-banqueiro. E, se aquisição de ações de uma SAF é suficiente para produzir manchetes acusatórias, um ministro desembarcando de um avião do mesmo ex-banqueiro também merece igual régua.
O jornalismo sério e imparcial não pode decidir quem é mocinho e quem é bandido. Os fatos devem ser divulgados e contextualizados de forma honesta, sem construções textuais que induzam a um veredito. Isso é tarefa da Justiça. Ainda que a Justiça, hoje, esteja bebendo, fumando e passeando com quem investiga, denuncia, julga e sentencia. Até porque, parafraseando o ditado popular, “quem nunca?”
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