Um Leão contra Trump?
Não há sinais de futuro confronto com o Executivo dos EUA, mas tampouco há margem para qualquer ilação de alinhamento político e ideológico
O novo papa é americano e viveu no Peru, ou seja, alguém não apenas fluente em inglês e espanhol – lembrando que há mais de 100 milhões de católicos nos Estados Unidos e outras centenas de milhões, do México ao extremo sul das Américas –, como conhecedor (por dentro) da cultura destes povos extremamente importantes para o Vaticano.
Agostiniano, preocupado, como o papa Francisco, com as questões sociais, talvez por isso a escolha pelo nome Leão, já que o último sumo sacerdote a adotar este nome foi o papa Leão XIII, autor de uma encíclica (Rerum Novarum) que tratou de forma atenta as questões sociais relacionadas aos operários industriais do final do século XIX, Robert Francis Prevost, agora papa Leão XIV, já é protagonista de um debate tão raso quanto um pires e tão importante quanto o número de calorias de uma bala de goma.
No binário mundo das bolhas – vazias de ideias e cheias de estupidez -, trumpistas e suas variáveis mundo afora dizem que a escolha foi influenciada pelo bufão alaranjado, que, dias atrás, de forma absolutamente bizarra, através do perfil oficial da Casa Branca, retratou a si mesmo como o novo papa. Lado oposto, os tais “progressistas” comemoram a “resposta do Vaticano ao imperialismo capitalista americano”, sobretudo diante destes inacreditáveis dias de terceiro mandato de Donald Trump.
Leão XIV será aliado ou contraponto ao trumpismo?
Vamos aos fatos: Prevost foi nomeado bispo por João Paulo II, e promovido a arcebispo e a prefeito do Dicastério para os Bispos pelo papa Francisco que, lembremos, em 2016, declarou sobre Donald Trump: “Quem constrói muros, em vez de pontes, não é cristão”. O novo papa nunca relativizou essa posição. Pelo contrário. Em seus anos no Dicastério, apoiou a substituição de lideranças conservadoras, como Joseph Strickland.
Prevost, além disso, assinou, em 2020, junto a bispos latino-americanos, uma carta conjunta que classificava a política migratória dos EUA como “antievangélica”. Já em 2024, em meio a discussões sobre a eleição americana, sem obviamente citar nomes e partidos, afirmou: “O Evangelho não pode ser reduzido a slogans eleitorais”. Este ano, já criticou Trump, no X, a respeito das deportações de criminosos para El Salvador, e contestou o vice-presidente J.D. Vence, na mesma plataforma, por literalmente inventar ensinamentos supostamente cristãos.
Dados os fatos, hoje, não há sinais de futuro confronto explícito com o Executivo dos EUA, mas tampouco há margem para qualquer ilação de alinhamento político e ideológico. Leão XIV é fruto de uma Igreja que resiste ao populismo, e sua trajetória é incompatível com o discurso excludente, xenófobo e beligerante que Trump representa. O rugido do leão, deste Leão, poderá até ser discreto. Mas acredito que será frontal.
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