O papa que nem todo mundo pediu a Deus
Os movimentos políticos da Igreja Católica não são facilmente captáveis pelo barômetro da política contemporânea
A fumaça branca subiu e temos um novo papa. Robert Francis Prevost – agora, para os íntimos, papa Leão XIV – foi escolhido na quarta votação em dois dias de Conclave. Nem deu tempo pra gente conspirar direito.
Relativamente jovem para os padrões cardinalícios, é bom o crítico mais exaltado já ir se acostumando com o americano de 69 anos, nascido em Chicago, missionário agostiniano no Peru e próximo do falecido Francisco. Trump ficou animadinho? Que desanime.
Identidades nacionais pouco significam à luz do universalismo católico. E, para aqueles que ainda insistem em situar mocinhos e bandidos à direita ou à esquerda, a depender de suas preferências e preconceitos, é bom lembrar que papados não se acomodam à nossa limitada topologia política.
Que alguém tão próximo do “carisma” social e político do papa Francisco tenha sido chamado por dois terços dos cardeais para liderar a Igreja é sintomático: reducionismo à parte, Prevost respira os mesmos ares reformistas que respirava Bergoglio.
Que Prevost tenha, entre tantos nomes e inspirações, adotado o de Leão XIV, é tão sintomático quanto: foi Leão XIII o iniciador da Doutrina Social da Igreja, com a publicação da encíclica Rerum Novarum.
O que defende a Doutrina Social da Igreja?
E a Rerum Novarum, para quem tiver curiosidade em dar uma espiadinha, é tudo, menos um compêndio econômico que incentive qualquer coisa vagamente parecida com “meritocracia”, valor entre os valores de gente que orbita em torno de Trump e assemelhados, ou “revolução”, aspiração entre aspirações de gente que orbita em torno de Maduro e semelhantes.
Ainda que seja um texto de 1891, nele estão lançados os princípios de uma doutrina social que é menos uma doutrina e mais uma sensibilidade, um espírito que continua vivo ainda hoje. Contrário aos abusos do socialismo e do capitalismo, Leão XIII não pretendia antecipar uma preguiçosa “terceira via”, mas inspirar na sociedade valores que não nasciam dela.
As encíclicas subsequentes serão mais ou menos enfáticas em certos pontos, a depender do contexto histórico no qual se inseriam, mas uma coisa é certa: a Igreja reconhece, reconheceu e reconhecerá que o cinismo libertário ou mesmo liberal é incompatível com o cristianismo.
Se a propriedade privada e o empreendedorismo são reconhecidos como legítimos e benéficos, em contrapartida, lucros exponenciais, políticas migratórias desumanas e punitivismo fanático sempre foram condenados como opostos aos ensinamentos cristãos.
Quem espera um papa ideológico continuará esperando
O mínimo de familiaridade com os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João deveria servir de vacina que imunizasse o cristão contra surtos (ou esperanças?) de direitismos e esquerdismos crônicos ou agudos nos documentos papais.
Algo me diz que este será o “estilo” do papa Leão XIV: dar de ombros às disputas ideológicas e eleitorais de hoje e de amanhã, para anunciar a mesma notícia anunciada há dois milênios, em um mundo em que cegos guiam outros cegos em direção ao precipício.
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Comentários (1)
Daniela_RS
08.05.2025 21:53Deus te ouça, Gustavo Nogy!! Que o Papa Leão XIV seja, acima de tudo, um Papa católico! Chega de rupturas!