TSE: o Judiciário realmente descobriu o prazer de mandar

14.07.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista

TSE: o Judiciário realmente descobriu o prazer de mandar

avatar
Ricardo Kertzman
5 minutos de leitura 10.06.2026 07:45 comentários
Análise

TSE: o Judiciário realmente descobriu o prazer de mandar

O Congresso está longe de ser uma casa de virtudes. Mas a solução para um Legislativo ruim não é um Judiciário que acha que legisla melhor

avatar
Ricardo Kertzman
5 minutos de leitura 10.06.2026 07:45 comentários 1
TSE: o Judiciário realmente descobriu o prazer de mandar
Foto: Antonio Augusto/ TSE

Há portas que, uma vez abertas, jamais voltam a ser fechadas. O Brasil, já há algum tempo, se acostumou a um fenômeno impróprio às democracias e à famosa tripartição de Poderes: quando o Congresso não decide, decide mal ou decide contra o gosto de parte da sociedade, logo aparece um ministro ativista para “salvar a nação” por despacho, voto ou liminar, não raro, de forma monocrática, o que torna tudo ainda pior.

O grande problema é que, nesse modelo, a suprema toga deixa de ser freio institucional – prerrogativa estabelecida pela própria Carta –  e passa a funcionar como atalho político de ocasião. Foi assim, por exemplo, no julgamento sobre o porte de maconha. O STF não se limitou a interpretar a Constituição ou corrigir uma distorção evidente da então Lei de Drogas. Foi além. Fixou quantidade, espécie botânica e presunção jurídica.

Sem dúvida que pode haver argumentos razoáveis a favor da descriminalização, ou não, do porte de maconha para consumo pessoal. Uma vez que o tema chegue ao Supremo, deve ser julgado. O que não há, contudo, é qualquer traço de normalidade institucional na Corte substituir o Congresso Nacional na definição prática de política criminal. E algo semelhante também se viu com Flávio Dino no caso do combate às queimadas.

De ministro a contador

Diante da emergência climática na Amazônia e no Pantanal, o ministro autorizou – por conta própria – créditos extraordinários para combate aos incêndios e permitiu que esse gasto ficasse fora da meta fiscal. Ora, o drama era real. A urgência também. Mas orçamento público, meta fiscal, crédito extraordinário e regra de despesa pertencem aos agentes da política fiscal, área em que o Executivo propõe e o Congresso delibera.

No Brasil atual, porém, os ministros do STF vêm despachando como se fossem os próprios gestores, normatizam as leis como devem fazer os congressistas e ainda se apresentam como os senhores guardiões da razão pública. Ou seja, três em um! E o caso Nunes Marques, agora como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), entra na mesma prateleira institucional, ainda que com um “sinal político” diferente.

O magistrado suspendeu, de forma liminar e monocrática, a divulgação de uma pesquisa da AtlasIntel que mostrava Flávio Bolsonaro em queda diante de Lula. O fundamento foi a suspeita de indução do eleitor, especialmente pelo uso de áudio e perguntas relacionadas ao caso envolvendo Daniel Vorcaro e o filme Dark Horse. O interessante é que, dessa vez, nenhum bolsonarista reclamou por ser uma decisão monocrática.

Cada um no seu quadrado

É claro que pode haver discussão técnica legítima sobre metodologia. Pesquisa eleitoral, afinal de contas, não é a terra sem lei que muitos políticos fazem em suas campanhas. Se um instituto usa perguntas enviesadas, vídeos, áudios ou estímulos capazes de contaminar respostas, isso obviamente deve ser examinado. Mas atenção: examinar não é  suspender, por decisão individual, uma pesquisa já divulgada.

Pior ainda se o argumento principal do reclamante, no caso a pré-campanha de Flávio Bolsonaro, é o efeito político do resultado. Transformar uma má notícia eleitoral em debate judicial não pode ser aceito, sob pena de se interditar completamente o andamento regular do mercado de pesquisas, por mera especulação sobre perseguição, censura, método e suposto favorecimento de um ou outro candidato.

O ponto aqui não é “advogar” a favor da AtlasIntel, Flávio Bolsonaro ou Lula. Nem meramente criticar Barroso, Dino ou Nunes Marques. A questão é outra e bem mais profunda: o Judiciário brasileiro se habituou a entrar em qualquer seara, sentar na cabeceira da mesa e decidir o que deveria ser resolvido pelo voto parlamentar e por políticas públicas dos eleitos. Ou seja, a vontade manifestada pelas urnas.

Ao gosto do freguês

Se, num dia, um ministro define a quantidade e espécie de maconha e, no outro, reorganiza a despesa fiscal da União, no seguinte irá interferir na circulação de pesquisa eleitoral. É o caminho natural em curso pela total ausência dos tais freios e contrapesos. Cada caso – e cada magistrado – tem seus argumentos, suas urgências e suas justificativas. Não raro, seus contratos. Assim chegamos a esta inaceitável deformação institucional.

O mais interessante é que essa deformação muda de nome conforme a ocasião. Quando a decisão agrada à esquerda, é “avanço civilizatório”. Quando agrada à direita, é “defesa da liberdade”. Quando um não gosta, é “ativismo judicial”. Quando gosta é “coragem institucional”. Tem-se, assim, esse balaio de gatos – e gatunos! -, que vai esgarçando cada vez mais a capa e o conteúdo daquele livrinho mágico chamado Constituição.

O Congresso brasileiro está longe de ser uma casa de virtudes. Muitas vezes é omisso, corporativo, fisiológico, corrupto e covarde. Mas a solução para um Legislativo ruim não é um Judiciário que legisla melhor, segundo seus próprios critérios. Democracia não é um concurso de eficiência entre Poderes. Ao contrário. É uma divisão de competências, inclusive quando essa divisão é mal feita e produz frustração.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Crusoé: Terceira via sobe de 11% para 27%

Crusoé: Terceira via sobe de 11% para 27%
2

BTG/Nexus: Lula perde fôlego no 1º turno, mas mantém empate técnico no 2º

BTG/Nexus: Lula perde fôlego no 1º turno, mas mantém empate técnico no 2º
3

Carta de Jair prova que Michelle não é Bolsonaro

Carta de Jair prova que Michelle não é Bolsonaro
4

Caminhoneiros iniciam paralisação para pressionar por MP do Frete

Caminhoneiros iniciam paralisação para pressionar por MP do Frete
5

Pesquisas renovam ânimo da pré-campanha de Flávio

Pesquisas renovam ânimo da pré-campanha de Flávio
6

Crusoé: Não tem cartinha que resolva

Crusoé: Não tem cartinha que resolva
7

Bolsonaro só quer saber de trigonometria

Bolsonaro só quer saber de trigonometria
8

Moraes suspende visitas de Flávio a Bolsonaro por 90 dias e manda defesa explicar carta

Moraes suspende visitas de Flávio a Bolsonaro por 90 dias e manda defesa explicar carta
9

Cabo Gilberto reage a Caiado e pede que ele “pare de ajudar o PT”

Cabo Gilberto reage a Caiado e pede que ele “pare de ajudar o PT”
10

Crusoé: Por que Lula caiu entre beneficiários do Bolsa Família

Crusoé: Por que Lula caiu entre beneficiários do Bolsa Família
1

Carta de Jair prova que Michelle não é Bolsonaro

Carta de Jair prova que Michelle não é Bolsonaro
2

Defesa diz que Cunha não tem relação formal com emendas

Defesa diz que Cunha não tem relação formal com emendas
3

Pesquisas renovam ânimo da pré-campanha de Flávio

Pesquisas renovam ânimo da pré-campanha de Flávio
4

Cunha retorna sem nunca ter ido embora

Cunha retorna sem nunca ter ido embora
5

Motta reclama de gesto de Lula e cobra mais atenção do Planalto

Motta reclama de gesto de Lula e cobra mais atenção do Planalto
6

Crusoé: Não tem cartinha que resolva

Crusoé: Não tem cartinha que resolva
7

TCU aponta baixo desempenho do governo Lula em metas do PPA

TCU aponta baixo desempenho do governo Lula em metas do PPA
8

Crusoé: Por que Lula caiu entre beneficiários do Bolsa Família

Crusoé: Por que Lula caiu entre beneficiários do Bolsa Família
9

Petro proíbe posse de Espriella em instalação militar

Petro proíbe posse de Espriella em instalação militar
10

Brasil "nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse efetivamente", diz Janja

Brasil "nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse efetivamente", diz Janja
1

Moraes é o marqueteiro do Flávio, ironiza Renan Santos

Moraes é o marqueteiro do Flávio, ironiza Renan Santos
2

Eduardo defende que EUA restabeleçam a Magnitsky contra Moraes

Eduardo defende que EUA restabeleçam a Magnitsky contra Moraes
3

Emirados Árabes acusam Irã de atacar dois petroleiros no Estreito de Ormuz

Emirados Árabes acusam Irã de atacar dois petroleiros no Estreito de Ormuz
4

Janja defende Michelle e Damares: “Misoginia não tem lado”

Janja defende Michelle e Damares: “Misoginia não tem lado”
5

Lula “enfrentou a prisão injusta com dignidade e altivez”, diz Gleisi

Lula “enfrentou a prisão injusta com dignidade e altivez”, diz Gleisi
6

Fernanda Montenegro estreia no TikTok e no YouTube

Fernanda Montenegro estreia no TikTok e no YouTube
7

Brasil “nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse efetivamente”, diz Janja

Brasil “nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse efetivamente”, diz Janja
8

Zema cobra fim de politicagem em post da CBF

Zema cobra fim de politicagem em post da CBF
9

Lula critica atuação dos EUA no Estreito de Ormuz e classifica cobranças como ‘pirataria’

Lula critica atuação dos EUA no Estreito de Ormuz e classifica cobranças como ‘pirataria’
10

“Você, enquanto juíza, dando opiniões num regime. O que queria? Flores?”

“Você, enquanto juíza, dando opiniões num regime. O que queria? Flores?”

Tags relacionadas

AtlasIntel Julgamento TSE
< Notícia Anterior

O memorial secreto que astronautas deixaram na Lua e só revelaram depois de voltar à Terra

10.06.2026 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Flávio perde votos entre independentes após mensagens com Vorcaro

10.06.2026 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Ricardo Kertzman

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (1)

Claudemir Silvestre

10.06.2026 09:12

Juízes sem qualquer condição moral para determinar às pessoas oque fazer !!


Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.