Trump está, literalmente, “agando” e voando para os EUA
A democracia americana já resistiu a guerras, depressões, assassinatos e atentados. Mas nunca enfrentou o deboche permanente das instituições
O presidente americano, Donald Trump, publicou mais um de seus vídeos grotescos – de péssimo gosto conceitual e estético -, deixando claro, portanto, o autor, gerado por inteligência artificial em que aparece voando em um caça, vestido de piloto, coroado como rei, despejando fezes sobre manifestantes que protestavam pacífica e democraticamente contra o governo.
A cena é abjeta, mas não surpreendente. O bufão cor de laranja é hoje o maior especialista do planeta em transformar o poder de Estado em deboche juvenil, a liderança ideológica em escárnio e a prática da política em circo, desconsiderando completamente o decoro do cargo e as consequências de seus atos literalmente escatológicos, seja para os EUA ou para o mundo.
O vídeo surgiu logo após as manifestações conhecidas como “No Kings”, ou “Sem Reis”, realizadas no sábado, 18. Em mais de 2.7 mil cidades americanas, um público estimado em milhões de pessoas saiu às ruas para rejeitar a ideia de um presidente com pretensões monárquicas e denunciar o avanço autoritário e personalista do novo governo trumpista.
Rei da escatologia
Houve protestos de Nova York a Los Angeles, passando por Chicago, Miami, Austin, Filadélfia, Atlanta e Seattle. A polícia nova-iorquina estimou cerca de 100 mil manifestantes; em Chicago, os organizadores falaram em 250 mil. Mesmo condados pequenos, como Manistee, no Michigan, reuniram centenas de pessoas sob o mesmo lema: “No Kings. No Gods. Just Democracy”.
Foi essa multidão – pacífica, ordeira, plural – que Trump transformou em vaso sanitário. No vídeo, ele aparece pilotando um caça com o nome “King Trump” estampado na fuselagem, usando coroa e uniforme militar, despejando excrementos sobre os manifestantes que marchavam com cartazes pedindo o que sempre foi óbvio nos EUA: limites ao poder.
Mas Trump não governa. Ele provoca. Não dialoga, apenas ridiculariza. O vídeo é mais um capítulo da estratégia que o elegeu – dividir para conquistar – e que, se depender dele, o manterá no poder por mais quatro anos, ou eternamente, já que a constituição americana não prevê a possibilidade de novo mandato, mas Trump, mais de uma vez, insinuou o contrário.
Devolvam os EUA
O país que se orgulha de ter sido fundado sob o lema “E pluribus unum” – De muitos, Um – virou o contrário: de um, mil fragmentos. O trumpismo é a versão digital da guerra civil americana. Metade da nação o idolatra; a outra metade o odeia. E ele se alimenta dos dois sentimentos. Vive de produzir caos, fingindo combatê-lo. É um ogro ditador em pele de presidente democrático.
O vídeo do “rei” despejando cocô não é nem de perto humor. É uma declaração de guerra estética contra o conceito de democracia e civilidade. É a consagração da ignorância como linguagem política moderna. Ao se coroar, ele não está zombando dos manifestantes, mas da ideia de que o poder pertence ao povo. É a antítese das bases que fundaram a América.
Esse sujeito opera como todo autocrata populista: precisa de inimigos para existir. O riso que provoca é o mesmo que destrói pontes, apaga fronteiras morais e transforma vizinhos em inimigos – a tal polarização afetiva descrita por Felipe Nunes, da Quaest. Ele não quer MAGA nenhum. Quer queimar a América para reinar sobre as cinzas da sua sanha autoritária.
Nós contra eles
Quando um líder de uma nação ri e debocha das pessoas que protestam pacificamente, ele não está sendo engraçado. Está simplesmente avisando que, no mundo dele, o silêncio é a única forma aceitável de concordância. O recado é muito claro e eloquente: Estou me lixando para vocês”. A imagem do rei no caça resume tudo: quem discorda, leva um sonoro “cagando e voando” como resposta sobre a cabeça.
A grandeza dos Estados Unidos sempre esteve na capacidade de unir os contrários. De fazer conviver o fazendeiro do Texas e o professor de Nova York, o negro do Alabama e o judeu de Boston, o conservador e o liberal, o rico e o miserável, sob a mesma bandeira. Trump despreza essa ideia. Para ele, unidade não é bom um negócio e o conflito, sim, uma commodity em que se deve investir para garantir lucros politicos – e não apenas.
A verdade é que esse tirano não quer liderar. Quer possuir. E como todo tirano sabe que a forma mais eficiente de dominação é a cisão social e a humilhação pública do inimigo. A mensagem aos seus seguidores é: riam dos inimigos, caguem nos discordantes, celebrem o lixo. A democracia americana já resistiu a guerras, depressões, assassinatos e atentados. Mas nunca enfrentou um deboche permanente das instituições. Que Deus salve a América – se ainda puder.
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Comentários (3)
João Bento Corrêa Lima
22.10.2025 18:04Não considero o Ricardo Kertzman um esquerdista, só porque critica a estupidez do Sr. Trump; na condução da nação norte americana!
Ari Bruno Lorandi
20.10.2025 16:46Logo no começo do artigo conclui: é o Ricardo, o esquerdista do antagonista
Rosa
20.10.2025 13:50Final ótimo...