Serão as piores eleições da história
Como escapar dessa pobreza política? Como escapar dessa miséria de propósitos? Como escapar de mais um ciclo eleitoral atirado na lixeira?
Nunca, desde a redemocratização, por piores que tenham sido os pleitos passados, os astros do mal estiveram tão alinhados como agora. O país encontra-se atolado nos mesmos entraves de sempre – corrupção, corporativismo, déficit público, juros altos, baixo crescimento etc. -, é verdade, mas jamais estivemos tão mal representados no Legislativo e no Executivo, nessa quantidade e intensidade, que tende a piorar.
Para complicar ainda mais o quinto dos infernos atual, o Judiciário foi, literal e popularmente falando, “pro saco”. O Supremo Tribunal Federal foi dragado para as profundezas da casa do capiroto por dois ou três ministros que não apenas se julgam – estes, sim, ministra Cármen Lúcia – “pequenos tiranos soberanos”, como avançaram o limite entre republicanismo, decoro, ética e, se Banânia fosse uma republiqueta minimamente séria, da lei.
Tudo junto e o mais constante, a nova legislatura, sobretudo no Senado Federal, promete levar mais Nikolas, mais Cleitinhos, mais Janones, mais gente sem o menor preparo técnico e intelectual, ativistas histriônicos de redes sociais, demagogos irresponsáveis que ora – né, senador Cleitinho? – defendem o fim da escala 6×1 e ora, vejam só, propõem leis para que proprietários de imóveis, e não inquilinos, paguem o respectivo IPTU.
Embuste eleitoreiro
Não. Cleitinho não é tão burro assim. Ao contrário. Ele sabe que, no caso dessa lei idiota passar, o imposto será embutido no valor da locação. E pior. Será acrescido dos respectivos impostos sobre a renda, o que tornará os aluguéis mais caros. Mas, assim como o fim da escala 6×1, esses embusteiros de redes sociais não estão nem aí para as contas e a realidade, apenas buscam pautas populistas para ganharem likes e, sobretudo, é claro,votos.
A plataforma eleitoral para as eleições do Senado não será a luta pelos interesses dos estados de origem. Para quem não sabe, senadores representam os estados, e os deputados, as respectivas populações. A causa será o impeachment de ministros do STF, algo mais que justo e tardio, é verdade, mas que deveria ser tratado não como projeto ou prioridade, mas como uma prerrogativa, ou melhor, função legislativa regular.
Em outubro, teremos, além do tradicional show de horrores de denúncias e acusações, desinformação e fake news, falta de propostas e de projetos estruturantes, gastos bilionários oficiais e “por fora”, uma turba barulhenta gritando “Fora, Lula” – pela quarta vez, meu Deus! -, “Fora, Bolsonaro” – pela terceira vez – e “Fora, Gilmar, Xandão e Toffoli”. Mas discussões maduras sobre infraestrutura, dívida pública e crescimento, nenhuma.
Churras no domingo
Como escapar dessa pobreza política? Como escapar dessa miséria de propósitos? Como escapar de mais um ciclo eleitoral atirado na lixeira? Sinceramente, não sei. E, confesso, já desisti de buscar explicações e respostas. Farei, outra vez, o que tenho feito: ou votando, quase isoladamente, em candidatos que prestam, como fiz com Henrique Meirelles, em 2018, por exemplo, ou nem saindo de casa para votar. Essa é a minha triste sina.
“Ah, Ricardo, assim alguém votará em seu lugar”. Uma ova! Ninguém vota no meu lugar ou por mim. Essa é a única hora em que o Estado e os políticos não têm poder sobre meu CPF. Ninguém irá me obrigar a chancelar a picaretagem, intelectual ou real, dessa gente – em sua maioria, ainda que não a totalidade – ordinária. Entre votar em Lula, Bolsonaro – seja lá qual -, Cleitinho, Nikolas e afins, na falta de alternativas, fico com cerveja e torresmo.
Não é à toa que, segundo todas as pesquisas – e de acordo com os índices de abstenção e votos em branco e nulos das últimas eleições -, tantos brasileiros sentem-se como eu – ou não representados ou sub-representados. O diabo é que, como sempre digo, políticos e governantes não caem do céu. Somos nós mesmos. Ou seja. Não podemos reclamar. Se os elegemos, então, que os aguentemos. Simples assim. Triste assim.
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Comentários (3)
Márcio Roberto Jorcovix
30.04.2026 08:44Faço parte desta tropa dos descrentes absolutos. É muito picareta por m2 no Brasil
Francisco Junior
29.04.2026 21:18Sou tão desesperançoso quanto Ricardo Kertzman. Brilhante texto.
Rosa
29.04.2026 11:36Faço minhas as tuas perguntas no cabeçalho. Que aperto no peito elas me fazem.....