Proporcionalidade de araque: o novo golpe da Câmara
O que está em jogo não é a representatividade, mas a repartição do butim. O Brasil não precisa de mais deputados. Precisa de vergonha na cara
Enquanto o brasileiro se distrai com as tretas de subcelebridades políticas e os vídeos sensacionalistas de pseudos parlamentares no TikTok, o Congresso Nacional, esta confraria de interesses próprios e cinismo institucionalizado, prepara mais uma tunga nos já surrados lombos contribuintes: o aumento no número de deputados.
Sim, leitor amigo, leitora amiga, você não leu errado. No país do desemprego disfarçado, da previdência surrupiada e da educação deseducada, cogita-se premiar justamente a classe política (a culpada), com mais cadeiras no paraíso das emendas, salários, cotões, verbas de gabinete e imunidades amplas, gerais e irrestritas.
A proposta – adequação proporcional da representação estadual com base no último censo do IBGE – prevê que a Câmara dos Deputados salte de 513 para 527 deputados. A justificativa pretende-se técnica, mas o objetivo é político. Ou melhor, financeiro. Quanto mais deputados, mais fatias no orçamento, mais emendas Pix e convênios sem licitação.
Me engana que eu gosto
No Brasil atual, o balcão da negociata é oficial. Já não se rouba por fora; rouba-se por dentro. As tais “emendas parlamentares”, vendidas como instrumentos de descentralização, tornaram-se a senha da corrupção legalizada. O Congresso sequestrou o orçamento da União para redistribuí-lo entre aliados e clientelas hereditárias.
As prioridades nacionais são substituídas pelos caprichos de deputados medíocres, com base eleitoral anêmica e apetite insaciável por dinheiro e poder. A cada ciclo orçamentário, mais bilhões fluem para fins eleitoreiros. Não há escola decente, posto de saúde ou estrada asfaltada, mas shows sertanejos com cachês milionários não faltam.
O aumento no número de deputados não é uma medida técnica, muito menos uma resposta a qualquer demanda popular. Ao contrário. É, antes de tudo, uma espécie de expansão de mercado. Mais cadeiras significam mais poder de barganha, mais fatias no orçamento, mais operadores na engrenagem bilionária das emendas parlamentares obscuras.
Representatividade de araque
Uma das prioridades do atual presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, é a votação, ainda no primeiro semestre deste ano, de uma proposta que ajusta o número de integrantes das bancadas estaduais e do Distrito Federal na Casa. Esse ajuste valeria para a legislatura que terá início em 2027, informa este mesmo O Antagonista.
A tramoia – idealizada por ninguém menos que a deputada federal Dani Cunha, filha do “ilibadíssimo e respeitável” Eduardo Cunha -, que dará uma banana para a Constituição, preconiza o aumento das cadeiras para estados que cresceram a população, mas impede a redução de deputados para estados que a diminuíram – o Rio, obviamente.
O que está em jogo não é a representatividade, mas a repartição do butim. O Brasil não precisa de mais deputados – precisa de menos políticos profissionais e mais vergonha na cara. A Câmara quer crescer não para representar melhor, mas para fatiar mais fundo o cofre da União. E o cidadão que paga a conta, ignorante, certamente irá aplaudir.
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Comentários (7)
Fabio B
06.05.2025 11:46Como pode o voto de estados completamente deficitários valerem mais que estados que contribuem pra riqueza do país? E ainda querem aumentar mais ainda dessa distorção para mais mamadores.
Carlos Renato Cardoso Da Costa
05.05.2025 16:37Mais uma escarrada na nossa cara. Mas a Lady gaga, amigo, que show!
Luis Eduardo Rezende Caracik
05.05.2025 15:04O Estado do Acre tem 913.000 habitantes e 8 deputados federais. O Estados de São Paulo tem 46.000.000 de habitantes e 70 deputados federais. Em outras palavras, o voto de cada paulista vale aproximadamente 6 vezes menos do que o voto de um acreano. Isso sim é desproporcionalidade.
MARCOS
05.05.2025 12:54GRAÇAS A DEUS COMPLETEI 70 ANOS. POSSO DIZER QUE NUNCA MAIS SEREI OBRIGADO A VOTAR EM LADRÃO. MEU VOTO: NUNCA MAIS.
Marcos Rezende
05.05.2025 12:36Bandidos são bandidos e tem quadrilha para se protegerem.
JEAN PAULO NIERO MAZON
05.05.2025 12:08Tem que se fu... povo eleve a filha do Cunha? Tchau queridos
Joaquim
05.05.2025 12:02Já disse aqui algumas vezes: O caminho é a rua. Temos outros absurdos também, como os vencimentos do sistema de injustiça brasileiro. Se não reagirmos só vai piorando.