O vaivém de Trump e os bilhões de dólares que fatura
Não há prova de manipulação direta, mas há um claro padrão. Cada inflexão verbal presidencial gera impacto previsível, repetido e imensurável
O presidente Donald Trump aprendeu a usar o verbo, ou melhor, a verborragia como alavanca de poder e de lucro. Desde que reassumiu a Casa Branca, em janeiro deste ano, transformou cada declaração de impacto global, especialmente sobre a China, em ativo especulativo. O padrão se repete: ameaça tarifas, o mercado despenca; recua, o mercado se recupera. Essa oscilação bilionária virou terreno fértil para quem lucra com volatilidade.
O caso mais recente ocorreu semana passada, especificamente em 10 de outubro, quando o presidente americano anunciou tarifas de 100% sobre as importações chinesas, a partir de 1º de novembro deste ano, por causa do movimento do país asiático de controle das exportações de matérias-primas e de produtos acabados e semi-acabados contendo minerais críticos – as tais Terras Raras -, de importância estratégica para os EUA.
O efeito foi imediato: o S&P 500 caiu 2,7%, o Nasdaq ampliou as perdas e empresas de tecnologia e manufatura com cadeias dependentes da China foram pressionadas. Algumas horas depois, contudo, Trump suavizou o discurso, “Don’t worry about China, it will all be fine”, e parte das perdas foi revertida. O movimento atingiu também o mercado de criptomoedas: o Bitcoin recuou mais de 8%, pulverizando dezenas de bilhões de dólares.
Em causa própria?
De acordo com o Economic Times e o South China Morning Post, mais de US$ 19 bilhões em posições alavancadas foram liquidadas naquele dia, afetando 1,6 milhão de traders. Só na primeira hora, após o anúncio, mais de US$ 7 bilhões evaporaram em liquidações forçadas. Um operador anônimo chegou a lucrar cerca de US$ 88 milhões em 30 minutos ao apostar contra o Bitcoin poucos minutos antes da fala de Trump.
Sempre que o presidente americano usa o microfone da Casa Branca ou sua rede social como armas geopolíticas, a dinâmica é previsível. Ao ameaçar tarifas, o prêmio de risco sobe, a volatilidade implícita dispara e os fundos ajustam suas posições. Quando o discurso muda, parte desse prêmio se dissolve. Entre uma frase e outra, há uma janela de oportunidades em que, quem opera com velocidade, captura ganhos expressivos.
A mecânica se repete no mercado de criptomoedas, onde liquidez e alavancagem ampliam cada variação. Em poucas horas, declarações políticas viram movimentos de preço, e o humor do presidente se transforma em indicador de mercado. Há ainda um ingrediente adicional. Trump e os filhos têm ligação direta com o setor. Em março, Eric Trump e o pai lançaram, em parceria com a mineradora Hut 8, a empresa American Bitcoin.
Cadê a SEC?
A empresa, dedicada à mineração e acumulação de ativos digitais, segundo a Reuters pretende abrir capital na Nasdaq – a bolsa americana de tecnologia. O projeto reforça a presença da família Trump em um mercado que o próprio presidente, até pouco tempo atrás, chamava de “fraude digital”. Hoje, é um dos setores mais diretamente impactados por suas decisões e falas públicas, e que, por característica, esconde os grandes vencedores.
A coincidência de interesses é, além de evidente, acintosa. O mesmo governo que ameaça a estabilidade global com uma guerra comercial alimenta, por via indireta, oportunidades de especulação bilionária nos mercados em que a família do próprio presidente tem participação ativa. Não há prova de manipulação direta, obviamente, mas há um claro padrão. Cada inflexão verbal presidencial gera impacto previsível, repetido e imensurável.
Trump criou um tipo novo de política econômica: o jawboning como instrumento de poder. Primeiro provoca, depois recua. Enquanto isso, traders, fundos e especuladores se movimentam com suas frases. O resultado é um mercado que responde menos a fundamentos e mais a impulsos trumpistas. A Casa Branca transformou o pregão em extensão da família Trump. E no meio de tanta oscilação, há quem ganhe muito dinheiro.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)