O Brasil por um fio em um mundo à beira do abismo

22.10.2026

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O Antagonista
O Brasil por um fio em um mundo à beira do abismo
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Ricardo Kertzman
8 minutos de leitura 18.08.2025 13:33 comentários
Análise

O Brasil por um fio em um mundo à beira do abismo

Iniciei esse texto falando em preocupação extrema e muita ansiedade. Pois é. Como dizia uma divertida propaganda: “Tá fácil pra ninguém”

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Ricardo Kertzman
8 minutos de leitura 18.08.2025 13:33 comentários 4
O Brasil por um fio em um mundo à beira do abismo
Foto: Divulgação/Instituto Ethos

É extremamente preocupante e causa muita ansiedade constatar, mas o retrato nu e cru da realidade fática é um só: a democracia brasileira está pendurada por um fio, e não por obra do acaso ou do capiroto, mas de um coquetel tóxico preparado com esmero durante décadas, que todos os dias nos é servido à mesa do “bar nacional”.

O que deveria ser a base sólida de uma nação desenvolvida e democrática – educação crítica, imprensa respeitada, instituições confiáveis, Estado eficiente etc. – virou ruína há muito tempo. O brasileiro não confia no governo, olha o Congresso como piada, acha o Supremo um clube de autoproteção e enxerga a imprensa com o mesmo desprezo.

Os números não mentem. O Datafolha mostrou que só 18% confiam no Congresso. Dois em cada três veem o Supremo como uma entidade criada para cuidar dos próprios interesses. A OCDE apontou que 70% acham que as instituições não trabalham pelo público. Partidos políticos, então, são o fundo do poço: ninguém acredita neles.

Digitalização nociva

No meio disso tudo, quem dita os rumos são os influencers e TikTokers de plantão – seja na política, na “informação”, na cultura – com auxílio luxuoso dos algoritmos, que são programados para premiar o barulho, e não a razão, buscando o máximo de monetização para as plataformas e os produtores de conteúdo.

Em 2022, o analfabetismo pleno caiu para 7%, contra 9,6% em 2010, segundo o último censo do IBGE. Mas cerca de 11 milhões de brasileiros ainda são incapazes de escrever um simples bilhete. E três em cada dez brasileiros adultos são considerados “analfabetos funcionais”, ou seja, leem e escrevem, mas não interpretam textos básicos. 

A melhora no índice de analfabetismo pleno parece avanço – e é -, mas é também uma armadilha: ler palavras não significa compreender ideias. Sem capacidade crítica, cada timeline de rede social vira sala de aula de desinformação. E não há Ministério da Educação que dê conta de alfabetizar adultos mergulhados em bolhas digitais.

Populismo dominante

Para complicar, quem domina esse terreno não são líderes democráticos, mas políticos populistas. Jair Bolsonaro talvez seja o caso mais emblemático: atacou instituições, desacreditou eleições sem provas, fez da mentira rotina e se tornou um mascote do “vale tudo”. Pior. Fez escola, e em sua esteira surgiram e floresceram outros.

Mas o lulopetismo não fica atrás. Vive de antagonismos maniqueístas, apresenta-se como “o povo contra as elites” enquanto se agarra ao Estado há décadas, e cultiva a retórica do coitado perseguido. No fim, um grita “Sistema corrupto”, o outro grita “Perseguição política”, e ambos tratam o país como torcida organizada de MMA.

O resultado é uma democracia corroída, sem espaço para projeto de Estado. Fora desses polos, reina o vazio. Lideranças realmente democráticas, dispostas a sustentar o diálogo e a institucionalidade, mal respiram em meio à pancadaria permanente. O ambiente público virou arquibancada de briga digital, onde a plateia aplaude quem bate mais forte.

Protagonismo indevido

Já a imprensa profissional, que deveria ser contrapeso, perdeu a autoridade – em parte por erros próprios, em parte por ataques orquestrados, em parte por se deixar engolir pela lógica da manchete rápida, lacradora, que dita o noticiário cotidiano. Hoje, jornal e boatos de internet disputam credibilidade no mesmo patamar. E isso diz muito.

O Judiciário tem atuado como uma espécie de bombeiro institucional: investigações, punições a golpistas, contenção de desinformação etc. Não é pouco. Mas sejamos francos: isso não é um bom sinal. Quando o sistema depende de um ministro do STF para supostamente impedir o colapso, é porque já estamos no limite do caos generalizado.

Pior. Moraes e o Supremo também abusam. Extrapolam mandatos constitucionais, concentram poder e se colocam como “salvadores da pátria” – que não são! -, papel que uma democracia madura jamais deveria aceitar. Defender a democracia contra golpistas não dá salvo-conduto para criar superpoder algum.

Futuro ainda mais incerto

Quem decide o que pode ou não ser dito, escrito, investigado ou julgado são as leis votadas e aprovadas no Congresso Nacional, por parlamentares com mandato popular. Suprimir ou subtrair tal princípio é o típico remédio que, em dose errada, vira veneno. E os riscos à frente não são abstratos. Ao contrário. São cada vez mais reais.

A próxima eleição pode colocar no Planalto um candidato bolsonarista que promete anistia para os réus do 8 de janeiro e para os condenados nos processos em curso no Supremo, além de indulto imediato a Jair Bolsonaro. Há também a ameaça explícita de impeachment de ministros do STF caso o bolsonarismo conquiste maioria no Senado.

Isso não é programa de governo. É um programa de revanche e o caminho mais curto para uma imprevisível crise institucional. Significa tentar reescrever as regras do jogo pela força da maioria ocasional e abrir caminho para uma escalada autoritária com ares de legalidade. Esse filme é velho e conhecido em autocracias e ditaduras mundo afora.

Retroalimentação contraproducente

O diabo é que a reeleição de Lula tampouco representaria alívio. Seria a repetição da irresponsabilidade fiscal que mina a confiança no país, da tentativa de regular e censurar redes sociais, sob o pretexto de combater a desinformação, e do uso do conflito social como motor de permanência no poder. O lulopetismo depende da polarização.

Lula precisa manter vivo o fantasma do bolsonarismo – e agora do Trumpismo – para se legitimar, enquanto o bolsonarismo só respira porque existe Lula no outro extremo. É uma simbiose doentia, que prolonga a divisão social e condena a democracia a sobreviver como ringue de luta política, e não como espaço de construção coletiva.

O problema é que o bolsonarismo lhe dá razão e mostra, sem pudor, cada vez mais, sua vocação antidemocrática e autoritária. O 8 de janeiro de 2023 não foi acidente. Eduardo Bolsonaro trabalha por uma intervenção estrangeira e, recentemente, bolsonaristas ocuparam a mesa diretora da Câmara dos Deputados em gesto de intimidação política.

Presos no labirinto

O quadro atual mostra líderes bolsonaristas defendendo ou ruptura institucional ou “invasão diplomática”, como se a soberania nacional e a democracia fossem moedas de troca para a manutenção do poder e a liberdade do patriarca do clã das rachadinhas. É a tradução mais clara de um projeto que jamais aceitou as regras do jogo democrático.

E Lula, embora não repita a coreografia do golpe, não está muito distante quando se trata de flertar com autoritarismos. A recente visita a Vladimir Putin, repleta de afagos, mostra a disposição de se alinhar com uma autocracia que sufoca a imprensa e assassina opositores políticos. Sem falar no banho de sangue na Ucrânia.

Com a China, a lógica é a mesma: aproximação, sem constrangimento, de um regime que é tudo, menos democrático. Ou seja: se o bolsonarismo aposta na retaliação interna como método de poder, o lulopetismo prefere buscar legitimidade abraçado a autocratas estrangeiros. No fim, ambos jogam contra a democracia, apenas com estilos diferentes.

Mundo em ebulição

O futuro da democracia depende de duas tarefas simples no papel e quase impossíveis na prática: reconstruir fontes confiáveis de informação e produzir líderes que não falem em grito, mas em regra. Enquanto isso não acontece, seguimos vivendo de improviso, com a democracia sustentada por gambiarras jurídicas e freios de emergência.

Neste sentido, nem em um ambiente externo favorável podemos confiar – e contar. O mundo também está à beira do abismo. A maior potência militar e econômica do planeta encontra-se subjugada por um lunático autocrata sem freios. E a Europa democrática, perdida e abandonada justamente pelo maior aliado, os EUA, mantém-se impotente.

O Oriente Médio arde, como de costume. A China mostra suas garras imperialistas. A Rússia não se importa com mais nada. E a América do Sul, coitada, continua sendo a… América do Sul. Entendem por que iniciei este longo texto falando em preocupação extrema e muita ansiedade? Como dizia uma divertida propaganda: “Tá fácil pra ninguém”.

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Ricardo Kertzman

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Comentários (4)

Um_velho_na_janela

19.08.2025 10:03

Que coisa, Claudemir! E eu pensando que que o fracasso sociopolítico e econômico do país era culpa dos 503 anos governado por uma direita oligárquica, colonialista, exploradora, espoliadora e escravagista. Nem tudo são mazelas no comunismo, ele é a grande desculpa para os fracassos da direitona.


Claudemir Silvestre

18.08.2025 22:40

Resumindo … nos últimos 22 anos em quase sua totalidade o Brasil vem sendo governado por uma ESQUERDA corrupta, incompetente que sonha em implementar o SOCIALISMO no Brasil !! Então as Forças Armadas do Brasil tem 2 opções, entrega o país aos COMUNISTAS ou restaura a Democracia verdadeira no Brasil !! Simples assim !!


Maria Aparecida Visconti

18.08.2025 15:25

perfeito


Um_velho_na_janela

18.08.2025 14:57

Sensacional, um artigo definitivo sobre a realidade sociopolítica atual, um artigo que até poderíamos chamar de tendencioso, porque altamente comprometido com a razão, a verdade, a convivência civilizada e um futuro melhor para o País. Quem se pautar por esses valores não pode deixar de ler este fundamental texto.


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