Neymar é o herói que o Brasil merece
Vista sob a ótica da eleição presidencial, idolatria sobre a grande esperança popular do hexacampeonato mundial soa como óbvia
Mesmo sem condições físicas plenas e no ocaso da carreira, Neymar Jr. (foto) se impôs como a grande sensação da Seleção brasileira em mais uma Copa do Mundo, superando até o treinador Carlo Ancelotti, que surgira como esperança de uma mudança de ares que não ocorreu.
Diante de um expressivo placar de 6 a 2 contra a Seleção do Panamá, boa parte da torcida que compareceu ao estádio do Maracanã no domingo, 31 de maio, cantou ao final da partida o nome de Neymar, que está sem condição de jogo e tenta se condicionar para tentar disputar o torneio.
Mesmo sem ter atingido as expectativas do início de sua carreira, que incluíam a consagração como melhor do mundo, na esteira de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, e a conquista de uma Copa do Mundo pelo Brasil, o atacante do Santos é o melhor jogador brasileiro das últimas décadas.
Falta de foco e escolhas erradas, como a ida para o PSG e para o futebol árabe, afastaram Neymar do destino de sucessor de Pelé, mas ainda não surgiu ninguém capaz de rivalizar com ele no Brasil, nem na qualidade já atingida, nem na capacidade de despertar emoções da torcida.
Torcida
O fato é que Neymar mobiliza paixões hoje mais pelo que representa do que pelo que realmente é, inclusive do ponto de vista político, já que declarou voto por Jair Bolsonaro em 2022.
E o mesmo ocorre na corrida presidencial deste ano, que tem dois pré-candidatos muito desgastados, cujas campanhas são empurradas por grupos minoritários, mas muito interessados e engajados.
Pesquisa AtlasIntel divulgada no início de maio indicou que 50,3% dos brasileiros acham que o atacante do Santos não deveria ser convocado para a Copa, contra 42% que responderam “sim”.
Ou seja, o Brasil está dividido sobre o assunto, para dizer o mínimo, mas Neymar foi o único ovacionado ao ter o nome dito por Ancelotti no evento carnavalesco montado para a convocação.
Aqueles que foram contra sua convocação não chegam a vaiá-lo, e as críticas de quem se posiciona contra o atacante são filtradas pelos seus torcedores e transformadas em recalque ou algo do gênero.
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Eleição
No caso da Seleção brasileira, a população não tem o que fazer; quem decide é Ancelotti. Mas uma nova pesquisa divulgada nesta segunda-feira, 1º, reforçou a impressão de que boa parte do país está cansada da polarização entre Lula e a família Bolsonaro, sobra a qual haveria alternativa.
Pesquisa Genial/Quaest divulgada há um ano, em junho de 2025, indicava que 15% eleitores de Lula não gostaria de ver o petista se candidatar de novo. Entre os eleitores de esquerda, o percentual de rejeição subia para 37% naquele levantamento.
No caso de Bolsonaro, que ainda não tinha sido preso por tentativa de golpe àquela altura, a rejeição no próprio eleitorado era de 38%. A proporção subia para 55% no eleitorado de direita.
Pesquisa Realtime Big Data divulgada hoje indica que 48% do eleitorado se diz “cansado da polarização” e “gostaria de ver uma terceira via nessas eleições”. É metade do país.
A outra metade está dividida entre Lula, um presidente que praticamente não conseguiu governar no terceiro mandato e se livrou da cadeia e de condenações por corrupção de forma sinuosa no STF, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), cujo maior predicado como candidato é ser filho de Bolsonaro.
Além do mais, Flávio foi apontado como o responsável pelo pai ter de entregar o governo ao Centrão e, não bastasse, se envolveu com o banqueiro Daniel Vorcaro para patrocinar o filme Dark Horse.
Polarização
Um quarto do eleitorado do país (27%) respondeu assim à pesquisa da Realtime Big Data: “Acredito na polarização, só assim podemos vencer o Lulismo”. Um outro quarto (25%) afirma o mesmo, mas de olho em outro resultado: “Acredito na polarização, só assim podemos vencer o Bolsonarismo”.
Está claro que esses dois grupos não estão interessados nos defeitos dos seus candidatos, mas naquilo que eles representam — ou a o que se opõem. Flávio agita a bandeira da segurança pública contra um presidente que já culpou os usuários de drogas pelo destino dos traficantes, enquanto Lula se abriga no discurso da justiça social e da democracia contra a ameaça de golpe simbolizada pelo adversário.
O fato de que ambos terão muita dificuldade para impor suas vontades caso eleitos, por causa do desgaste com que chegam à disputa, não é o bastante para tirar a paixão da maioria dos apoiadores.
Além disso, a metade do país que já cansou da polarização não tem o interesse necessário para impor a própria vontade e deve apenas assistir contrariada à batalha eleitoral deste ano.
O Brasil tem o herói do hexacampeonato que merece, ainda que isso não seja o bastante para ganhar o título mundial. Da mesma forma, o país merecerá o presidente eleito neste ano, por pior que seja.
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