Nas ruas por Lula, anistia e Trump; que independência é essa?
Outrora festa de famílias e do país, o 7 de setembro foi sequestrado por populistas e seus seguidores fanáticos
Houve um tempo – bem remoto, é verdade – em que o 7 de setembro era de fato o “Dia da Independência” e as famílias saíam às ruas, em paz e harmonia, para assistir aos desfiles e às paradas cívico-militares, celebrando a soberania conquistada em 1822.
Lembro-me com saudosa memória destes feriados ensolarados em Brasília – minha cidade natal, onde vivi até os 10 anos -, no Eixo Monumental (Eixão) lotado, junto aos meus pais e irmãos, vizinhos e colegas de escola, também com seus familiares.
Parentes que vinham de outros estados, moradores das cidades satélites e diversas autoridades estrangeiras costumavam prestigiar a cerimônia. E, a despeito do ufanismo e do patriotismo (sempre brega) da época, era um evento bem legal.
Em plena ditadura
Particularmente, como criança, jamais soube ou percebi a opressão do regime militar, e mesmo a presença de um soldado sempre armado com um fuzil, à porta da minha casa, dia e noite, porque o vizinho era um ministro de Estado, não me parecia estranho.
Eu morava na 208 sul e a quadra ao lado, a 209, era majoritariamente habitada por militares, que os adultos, pejorativamente, chamavam de “milicos”. Na escola, havia uma tal “hora cívica” e ensinava-se OSPB (Organização Social e Política Brasileira).
Até hoje me lembro dos hinos oficiais e das músicas em louvor à pátria. Se eram, ou não, um culto à ditadura militar, eu nunca soube nem percebi. Mas havia um sentimento de unidade verdadeiro naqueles dias, independentemente das questões políticas.
Novos tempos, péssimos dias
Após a redemocratização em 1985, e até a primeira eleição de Lula em 2002, o 7 de setembro se manteve relativamente longe da política e perto da sua origem. Infelizmente, o chefão petista, precursor do odiento “nós x eles”, deu início à partidarização da data.
O lulopetismo transformou o Dia da Independência em espetáculo de proselitismo político e palco de campanha eleitoral. Desde o segundo mandato de Dilma Rousseff, barreiras separando petistas e antipetistas geralmente são montadas nos desfiles em Brasília.
Outrora festa de famílias e do país, o 7 de setembro, sequestrado por populistas e seus seguidores fanáticos, sobretudo após a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, tornou-se mero pretexto para comício eleitoral, reforçando a cisão da sociedade e o desprezo pela pátria.
Fundo poço?
Este domingo promete ser ainda mais triste e pior, pois bolsonaristas, por todo o Brasil, não só se esquecerão dos princípios verdadeiramente patrióticos, como pedirão – outra vez – atos antidemocráticos, anistia para golpistas e até por intervenção estrangeira.
Líderes políticos do bolsonarismo farão discursos raivosos contra o Judiciário nacional, ao mesmo tempo em que, junto aos seus fanáticos, louvarão as tarifas americanas e a Lei Magnitsky, carregando faixas escritas “Trump” e bandeiras de Israel.
Lado oposto, os lulopetistas os acusarão de “traidores da pátria”, demonizarão os ricos do país, defenderão mais impostos, farão juras de amor aos pobres, prometerão picanha e cerveja gelada se vencerem as eleições do ano que vem e blá blá blá.
Um dia, talvez
Eu tive a oportunidade de participar duas vezes do 4 de julho – Independence Day – em Nova York, nos Estados Unidos. E também do 17 de maio – Nasjonaldagen (Dia Nacional) ou Grunnlovsdagen (Dia da Constituição) – em Oslo, na Noruega.
São festas belíssimas, datas em que seus povos verdadeiramente celebram as pátrias onde vivem. Na Noruega, especialmente, onde todos saem às ruas com roupas típicas, é realmente admirável – e encantador para um observador estrangeiro.
Nessas duas oportunidades, me lembrei da minha infância e dos desfiles em Brasília. Ao final, indo para casa, em ambas ocasiões, me questionei em silêncio: “Quando foi que nos perdemos como povo e nação? Será que um dia nos reencontraremos?”
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Comentários (5)
Um_velho_na_janela
08.09.2025 09:24O artigo sempre oportuno e definitivo do Ricardo e os comentários a ele feitos poderiam ser definidos em numa frase "A Pátria que Perdemos"
ALDO FERREIRA DE MORAES ARAUJO
07.09.2025 18:12Voltei à minha infância e adolescência, e mesmo na juventude e um tempo depois ainda era uma data a ser comemorada como se deve. O escritor pergunta, "quando foi que nos perdemos como povo e nação"? Foi a partir de 01/01/2003. Já a segunda pergunta, está mais difícil responder.
Jorge Irineu Hosang
07.09.2025 17:11Que País é esse, em que uns acenam com bandeiras de Israel e EUA e outros com bandeiras da Palestina e Cuba, onde ambos os lados dizem que Trump e Putin são grandes Líderes e que tem o direito de usurpar da soberania de países e romper com organismos e acordos internacionais que foram fundamentais para a criação de um Mundo Civilizado. Não há "inteligência" nem "bom senso" nesses extremos, só "golpismo" e "idolatria". É o Patriotismo, o Nacionalismo, com o hasteamento de bandeiras de terceiros, é uma gente que acredita que só há espaço para o "Falso Deus" que elas veneram e que o outro lado merece ser "aniquilado", toda ilegalidade é condenável quando praticada pelo lado oposto e justificável quando praticada por seu lado. O antagonismo se expressa até por contrariar o óbvio, se este for dito ou praticado pelo outro lado. Interessante que, para os que não sofrem dessa síndrome e não tiveram suas consciências abduzidas, percebem que muitos dos que vivem nestes extremos, transitaram de um lado para o outro, o que demonstra que se não é por oportunismo, é por conta de algum transtorno psíquico peculiar. Nos vemos em meio a uma sandice de tamanha magnitude, que até a sobrevivência social tornou-se difícil, muitos estão se isolando.
F-35- Hellfire
07.09.2025 15:44De fato, já vão longe os alegres 7 de setembros da minha infância e .juventude. O Brasil, embora ainda um lindo país, está capturado pela esquerda populista e anti-liberal. Tornou-se um país triste para muitos e atraente para os canalhas oportunistas e anti-patriotas, é a cara do Lula e das esquerdas anti-liberais. Querem o estado no comando de empresas como Correios, Petrobrás e bancos. Nelas podem contratar pessoas, serviços e obras, sempre com os protegidos bajuladores...Assim roubam mais e nós pagamos as contas. Nesse tipo de "governo democrático" controlam a imprensa e outros meios de comunicação como o rádio e a TV através de anúncios e subsídios e o Brasil se torna cada vez menos democrático e com isso se torna também um país mais triste. Esperamos que em 2026 possamos mudar isto, voltar a ter esperança e sonhar com justiça e prosperidade para todo o país!
Magdalena Buzolin
07.09.2025 10:46Adorei o texto, me lembrou quando uma das matérias na escola era a tal OSPB e quando me tornei professora de escola municipal de SP, o 7 de Setembro era um dia comemorado com desfiles de escolas.