Kassab decreta o fim da alternativa a Lula e Flávio Bolsonaro
Escolha de Caiado como pré-candidato à Presidência é a admissão de que o PSD desistiu de disputar o espaço que dizia querer ocupar
O PSD passou meses vendendo a ideia de que poderia ser o fiel da balança numa eleição que já nasce contaminada pela polarização. Falava-se em centro, em moderação, em responsabilidade institucional. Mas bastou Ratinho Junior sair definitivamente de cena para tudo isso evaporar.
Gilberto Kassab (à esquerda na foto), o maestro da política nacional, visa o crescimento do próprio partido, apostando em uma bancada mais robusta no Congresso Nacional.
A escolha de Ronaldo Caiado (à direita na foto) como pré-candidato à Presidência é a admissão de que o partido desistiu de disputar o espaço que dizia querer ocupar.
Eduardo Leite nunca foi unanimidade, nem dentro nem fora do PSD, diga-se. Falta ao gaúcho densidade política e apelo popular, é fato. Ainda assim, era o único nome capaz de sustentar, com alguma coerência, o discurso de uma candidatura fora do eixo lulopetismo versus bolsonarismo.
Jogou a toalha
Ao descartá-lo na prática e abraçar Caiado, Kassab fez uma escolha clara. Parou de fingir que queria construir uma alternativa e decidiu entrar no conflito que já está posto, pois mais benéfico, como já dito, ao seu partido. Além, é claro, de manter abertas portas ministeriais em um possível governo bolsonarista
Caiado não representa o centro em nenhum recorte minimamente sério. Sua trajetória o coloca em disputa direta com o eleitorado bolsonarista. Não amplia o campo. Divide o mesmo território como mais um candidato tentando se diferenciar no detalhe. Resultado: fragmentação onde já existe excesso.
A decisão, assim, deixa de ser apenas interna ao PSD e passa a ter impacto direto no desenho da eleição. Sem uma candidatura minimamente competitiva de centro, o eleitor que rejeita tanto Lula quanto o bolsonarismo continua sem opção viável. Fica órfão ou é empurrado para um dos polos.
Bolsonarismo feliz
A consequência não é difícil de antecipar. Se a eleição caminhar para um confronto apenas entre Lula e um nome do campo bolsonarista, hoje Flávio Bolsonaro, o risco de definição no primeiro turno deixa de ser hipótese remota e passa a ser cenário possível. As pesquisas, inclusive, mostram isso muito bem.
Essa leitura aparece também nos discursos à direita, principalmente do presidente nacional do Novo, Eduardo Ribeiro. Ao defender a candidatura de Romeu Zema e rejeitar a concentração em torno de um único nome, Ribeiro aponta para uma estratégia oposta à que hoje se impunha em torno apenas do bolsokid 01.
Zema é tratado por ele como peça fundamental de um arranjo, que pressupõe disputa mais aberta no primeiro turno, para reorganização posterior. Se a oposição se comprime num único nome, reduz a capacidade de empurrar a eleição para o segundo turno. Daí a importância de Zema e, agora, de Caiado.
O exemplo vem de fora
Não se trata de uma teoria tão sofisticada, mas de mera matemática eleitoral. Quanto mais candidaturas disputando o mesmo espaço ideológico, maior a capacidade de levar a eleição para o segundo turno. E sem segundo turno, não existe reorganização, nem aliança, nem convergência possível.
O Chile entendeu isso recentemente, segundo Eduardo Ribeiro. Fragmentou no primeiro turno, reorganizou no segundo e construiu maioria depois. Aqui, insistia-se em fazer o inverso: tentava-se concentrar antes de ter base majoritária, que acabaria dizimando a oposição sem tal estratégia.
Kassab, que sempre se vendeu como um grande operador pragmático, fez uma escolha curiosamente pouco pragmática. Abriu mão de disputar o centro – e ganhar milhões de votos – e aderiu a uma briga em que já há gente demais e votos de menos. É um jogo que só atende ao bolsonarismo – ainda que finjam não gostar
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