Hugo Motta, um presidente da Câmara desmoralizado pelo bolsonarismo
Ocupação da Mesa Diretora e acordo construído por Arthur Lira mostra que o deputado paraibano é uma figura pouco respeitada entre colegas
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), perdeu completamente as condições morais para se manter no cargo. As cenas dantescas vistas nas últimas horas confirmaram aquilo que já se falava em todos os gabinetes da Casa: Motta tem a caneta, mas nunca teve o poder.
Na terça-feira última, 5, deputados bolsonaristas sequestraram o plenário da Casa, transformaram a pauta em refém e exigiram como pagamento pelo resgate a tal anisita ampla e irrestrita a Jair Bolsonaro e aos réus dos atos de 8 de janeiro. Em bom português: chantagem.
Por óbvio que a tática bolsonarista não é inédita. O PT também ocupou a Mesa Diretora da Câmara ao protestar pelo Lula Livre em 2018. Mas essa algazarra petista não chegou nem perto das cenas tragicômicas testemunhadas por nós brasileiros na noite desta quarta-feira. A obstrução parlamentar é regimental; a obstrução física, impedindo deputados de trabalhar, não.
O que se viu nesta quarta-feira à noite foi um presidente da Câmara acuado e sem capacidade de diálogo algum entre os seus colegas. Uma cena foi sintomática: o deputado Marcel Van Hattem (Novo-RS) se negou a sair de uma das cadeiras da Mesa Diretora, mesmo diante dos incessantes apelos de Motta. Assim, Motta foi desmoralizado ao vivo, com transmissão pela TV Câmara. Nada mais simbólico.
Por óbvio, lidar com o ego de outros 512 ególatras não é uma tarefa simples. Mas liderança, quer seja na política, quer seja na vida, se impõe a partir de algumas premissas básicas: ou por medo, ou por exemplo. Motta não mete medo; nem é visto como exemplo de atuação parlamentar por seus pares.
O fiador da vitória de Motta no início do ano foi o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL). E isso ficou claro nesta quarta-feira. Motta só retomou seu lugar quando Lira conseguiu costurar um acordo com os radicais do PL, ao lado de aliados como o líder do PP, Dr. Luizinho, e o ex-líder do União Brasil Elmar Nascimento. Ou seja: se dependesse exclusivamente de Motta, provavelmente a bancada bolsonarista ainda estaria lá, sentada na Mesa Diretora e tomando café da manhã.
Durante essa crise, ficou claro que Motta pode até ter a caneta, mas a Câmara está acéfala. Falta uma figura com autoridade que possa, de fato, estabelecer um rumo não somente para a atuação parlamentar, mas para a condução de pautas que levem o país para a frente. O Brasil vive um vácuo de poder inédito. E Motta é um símbolo deste vácuo de poder.
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Comentários (3)
Luiz Filho
07.08.2025 22:20Herdeiro de oligarquia corrupta, tão corrupto quanto a família e político incompetente e improdutivo
Renato Grifanti Vieira Rosa
07.08.2025 10:21Triste o papel desse deputado (poste) Hugo Motta. A posição que ocupa como “presidente da Câmara dos Deputados” não foi por mérito, mas fruto de um acordo entre vários deputados que queriam alguém ali que pudessem "ter acesso". O acordo foi tão grande que o que finge ser presidente, na prática, não preside nada. Ou seja: um poste.
Fernando Roberto Benitez Nobrega
07.08.2025 09:42Discordo em parte do texto, pois acho que Hugo Motta fez por ser desrespeitado ao (1) prometer tudo para todas as correntes, mesmo antagônicas - quem promete tudo a todos, nada faz e causa desconforto. (2) cantou de macho - tipo prendo e arrebento, sem ter o poder. Está claro que esse senhor não terá destaque no Congresso a partir de fevereiro de 2027. Hugo Motta precisava ter convivido com Ernani Satiro (deputado paraibano que foi presidente da Câmara).