Flávio é Bolsonaro
Quem se preocupa com a ausência do sobrenome do senador em manchetes no noticiário se arrisca a favorecê-lo durante a campanha presidencial
Surgiu, há cerca de dois meses, uma polêmica vazia a partir de uma autocrítica da Folha de S.Paulo: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teria sido “promovido” a Flávio, sem menção ao sobrenome da família, após virar pré-candidato à Presidência da República.
Leitores do jornal reclamaram do encurtamento do nome, um subterfúgio jornalístico para deixar a mensagem mais direta e clara (Bolsonaro sempre será uma referência a Jair Bolsonaro), e a ombudsman endossou a neurose dos assinantes, ao propor reflexão sobre algo tão banal.
No fundo, os leitores neuróticos temem que Flávio consiga se distanciar do pai o bastante para atrair os votos do determinante eleitorado independente, como o Bolsonaro “moderado” — a repercussão da autocrítica da Folha entre esquerdistas deixou isso bem evidente.
Mais moderado
O problema, para quem teme a eleição de Flávio, é que ele pode até não ser moderado, mas é o mais moderado da família, e as pesquisas de intenção de voto já indicam essa percepção.
Outro problema para essa mesma turma: Flávio precisa ser associado a Bolsonaro para conseguir os votos dos eleitores do pai, e nem todos se convenceram ainda de que ele merece confiança.
Quem entrar nesse jogo enfrentará o mesmo desafio do senador: passar duas mensagens conflitantes ao mesmo tempo, mas com sinais invertidos, sob o risco de favorecê-lo em algum momento.
Do lado do pré-candidato presidencial do PL, que tem apostado em suavizar a imagem, principalmente com o eleitorado feminino, há ainda outro elemento incontrolável: seus irmãos.
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Eduardo e Carlos
Eduardo Bolsonaro, o deputado federal cassado por faltas, que já tinha reivindicado participação na rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), minimizou a “troca de farpas” nas redes sociais com aliados para destacar sua atuação e a do irmão Carlos para o projeto da família.
Eduardo compartilhou em seu perfil no X um trecho de uma entrevista em que diz ter viabilizado a pré-candidatura presidencial do irmão, com a seguinte mensagem:
“Se Jair e Flávio tivessem ouvido quem mandava se afastar de mim e do Carlos, o resultado seria simples:
-JB não seria presidente em 2018
–Flávio nem seria opção em 2026
Conclusão: quem repete que ‘o problema são os filhos’ ou não entende nada, ou age de má-fé.”
Herança maldita
O deputado cassado argumenta, na entrevista, que a pré-candidatura de Flávio surpreendeu a todos e que ela não definhou, ao contrário do que se previa. Mas a maior vantagem do filho 01 de Bolsonaro hoje está na debilidade política de Lula, e não na força de sua própria pré-candidatura.
Pesquisa AtlasIntel divulgada em abril sugeriu que a maior fragilidade da candidatura de Flávio, no que diz respeito a sua associação ao pai, é a forma como Bolsonaro conduziu o país durante a pandemia de covid.
É com essa herança que ele vai ter de lidar e, mais do que isso, com o fato de que não concorre sozinho. Flávio pode ser o mais moderado dos Bolsonaros, mas a família concorre unida, por mais desunida que seja, e seus irmãos não estão nada interessados em moderação.
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