Estrelando Haddad, ‘IOF 2 – O Retorno’
Derrota da MP 1.303 na Câmara expôs não apenas a fragilidade da articulação política, mas também a ausência de um plano B crível para a política fiscal
A derrota da Medida Provisória 1.303 na Câmara dos Deputados abriu mais um buraco fiscal no horizonte do governo Lula.
A proposta, que previa arrecadar cerca de 17 bilhões de reais em 2026, naufragou sob forte resistência de parlamentares do agronegócio e do setor financeiro.
Agora, a equipe econômica, liderada por Fernando Haddad (foto), cogita uma alternativa amarga: retomar o aumento do IOF — imposto que incide sobre operações financeiras — para tentar compensar parte da perda de receita.
O movimento reacende o debate sobre improvisação fiscal e a falta de estratégia consistente para equilibrar as contas públicas.
A derrota que expôs o improviso
A MP 1.303 nasceu como um remendo tributário para tapar o rombo deixado por outro remendo: o fracasso da tentativa anterior de elevar o IOF.
O texto original buscava corrigir distorções na tributação de títulos bancários, como LCIs e LCAs, que hoje oferecem isenção fiscal e competem com títulos públicos.
No papel, o plano fazia sentido técnico. Na prática, esbarrou no pragmatismo político de um Congresso que não se dispõe a abrir mão de privilégios fiscais de setores influentes e essenciais — especialmente o agronegócio.
O governo negociou, cedeu, flexibilizou o texto. O relator, deputado Carlos Zarattini (PT-SP), chegou a desmontar boa parte da proposta para agradar diferentes bancadas. Ainda assim, o texto foi rejeitado por ampla margem.
A derrota expôs não apenas a fragilidade da articulação política, mas também a ausência de um plano B crível para a política fiscal.
IOF: o imposto da emergência eterna
Agora, o Ministério da Fazenda volta a cogitar o que havia tentado contornar: o aumento do IOF.
O tributo, que deveria ter caráter regulatório e temporário, virou um coringa fiscal — acionado sempre que o governo precisa de caixa rápido.
Haddad tem admitido, em conversas reservadas, que o reajuste não resolveria o problema integralmente, mas ajudaria a “tampar parte do buraco” de curto prazo.
O problema é que o IOF tem efeito direto sobre o crédito, encarecendo operações para empresas e consumidores.
Aumentá-lo em um momento de juros elevados e atividade econômica frágil é o equivalente a tentar equilibrar o orçamento pisando no freio do crescimento.
É o tipo de medida que arrecada hoje, mas custa caro amanhã.
A política da chantagem
Mais do que o aumento de impostos, o que chocou nos bastidores foi a ameaça explícita do líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP).
Antes da votação, Randolfe admitiu que, caso a MP fosse rejeitada, o Planalto recorreria a um “arsenal de reação”, incluindo o bloqueio de até 10 bilhões de reais em emendas parlamentares.
Em bom português: chantagem institucional.
Um governo que tenta aprovar medidas impopulares na base do corte de emendas se distancia do diálogo republicano e reforça a imagem de que governa por meio de pressões e barganhas.
A estratégia, além de arriscada, revela desespero diante da dificuldade de aprovar qualquer pauta fiscal. O resultado foi o oposto do pretendido: desmobilização de aliados e desgaste público.
Mercado reage, mas não celebra
Apesar de o mercado financeiro ter respirado aliviado com a manutenção das isenções sobre LCIs, LCAs, CRIs e CRAs — instrumentos fundamentais para o crédito imobiliário e do agronegócio —, ninguém saiu celebrando.
A incerteza fiscal continua, e a sinalização de um possível aumento do IOF reacende a desconfiança de investidores.
Carlos André, presidente da Anbima, foi direto: o mercado não tem o que celebrar.
A derrota da MP não elimina os desafios estruturais do setor, apenas adia uma discussão inevitável sobre simplificação e racionalidade tributária.
Enquanto o governo insiste em soluções emergenciais, o Brasil continua preso ao ciclo da improvisação fiscal — onde cada tapa-buraco gera outro logo adiante.
O preço da credibilidade
Com a perda potencial de 17 bilhões de reais em 2026, o risco de flexibilização da meta fiscal aumenta.
O governo acena com corte de gastos e bloqueio de emendas, mas continua sem coragem para enfrentar o verdadeiro problema: o tamanho do Estado e a ineficiência da máquina pública.
Voltar a subir o IOF é a velha receita de sempre — tributar o crédito, punir o investimento e disfarçar o descontrole.
O ministro Haddad tenta se equilibrar entre a ortodoxia que o mercado cobra e a leniência política que o Planalto exige. Mas, no fim, não há IOF capaz de comprar credibilidade.
O ajuste fiscal denque o Brasil precisa não virá do improviso, e sim de uma decisão política que o governo insiste em adiar: gastar menos e planejar mais.
Até lá, seguiremos vendo o mesmo filme — e pagando o ingresso mais caro a cada reprise.
Pedro Kazan é profissional do mercado financeiro desde 1999, empreendedor e palestrante, formado em Engenharia de Produção com ênfase em Engenharia Econômica pela UFRJ. De 2002 a 2004, fez parte do Controle Operacional da Mesa Proprietária do Banco BBM, de onde saíram os fundadores das mais renomadas Assets do Brasil, como SPX, Kapitalo e Navi. Desde 2004 dedica-se à Gestão de Recursos e Assessoria de Investimentos Private. Fundador do canal de educação financeira KZN Investimentos. Nascido no Rio de Janeiro. Vivendo em Lisboa.
Leia mais: Me tributa, que eu gosto
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