Estado brasileiro criou a cultura da inadimplência
A inadimplência no país não é um desvio de conduta individual; é uma instituição cultural, moldada de cima para baixo
Por Guto Gioielli*
O Brasil padece de um mau diagnóstico: o de que o brasileiro não paga suas contas por mero desleixo. Bobagem. A inadimplência no país não é um desvio de conduta individual; é uma instituição cultural, moldada de cima para baixo, do topo da República até o extrato mais vulnerável da população. No Brasil, o calote é um espelho que o governo estende ao povo.
Essa árvore genealógica do atraso é antiga. Vem desde o Império, época em que a Coroa não pagava contas com moeda forte, mas com a moeda de troca do compadrio: títulos de nobreza, sesmarias e favores por dívidas.
Viramos a chave para a República, mas o modus operandi apenas ganhou verniz burocrático.
Quer a maior prova de que o Estado é um mau pagador profissional? Olhe para os precatórios.
Receber o que o governo lhe deve na Justiça exige uma ginástica jurídica hercúlea ou, como dita a velha cartilha do fisiologismo, o trânsito livre entre os “amigos do poder”.
Exemplo
Quando o exemplo que vem de cima é o calote institucionalizado, o cidadão comum rapidamente aprende a lição.
Sabendo que operam em um ecossistema onde o risco de inadimplência é altíssimo — e o calote é cultural —, os bancos fazem o que sabem fazer de melhor: jogam os juros nas nuvens.
Sob o pretexto de cobrir o risco, lucram cifras recordes e transformam seus clientes em uma espécie modernizada de escravidão financeira. O cidadão trabalha para pagar o juro, não o principal.
É aí que o cinismo estatal atinge seu ápice. Para posar de salvador da pátria, o governo intervém periodicamente com programas de refinanciamento e descontos em dívidas.
Ciclo
Limpa-se o nome do cidadão na terça-feira para que ele possa se endividar novamente na quarta. O ciclo se repete, a roda gira, e o sistema se realimenta.
Para piorar o cenário, o Estado encontrou uma nova forma de extrair receita da vulnerabilidade alheia. Em vez de atacar o problema na raiz, abriu a porteira e legalizou a febre das casas de apostas, as bets.
O raciocínio é puramente arrecadatório: recolhe-se uma montanha de impostos sobre o vício, enquanto o povo, iludido pela promessa de dinheiro fácil para quitar o rombo anterior, afunda-se ainda mais no superendividamento. É o cassino legalizado pela máquina pública.
Tudo isso acontece porque há um projeto por trás da omissão. A educação financeira nunca foi, de fato, implementada a sério no currículo escolar brasileiro.
E a razão é simples: um povo financeiramente educado não aceita juros abusivos, não cai no conto de fadas das apostas e, acima de tudo, cobra responsabilidade fiscal de seus governantes.
Enquanto a ignorância financeira for lucrativa e a dependência for útil para o governo, a roda da inadimplência continuará girando. E o Brasil seguirá sendo o país onde o calote não é um erro, mas o próprio sistema.
*Guto Gioielli é analista de investimentos (CNPI) e fundador do Portal das Commodities.
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