Eleições: entre a revolta e o candidato, a catástrofe
A pergunta, brutal de tão simples, continua sem resposta: até quando o Brasil suportará transformar frustração em voto; e voto em desastre?
“De cabeça de juiz e bumbum de neném pode sair qualquer coisa”, dizem os advogados ao falarem da incerteza das decisões judiciais. Pois de cabeça de eleitor, também. A cada dois anos, milhões vão às urnas no Brasil, sem convicção e embalados por rancores legítimos e esperanças vãs, quase sempre entregando poder a quem promete muito e cumpre pouco.
As pesquisas de opinião até tentam antecipar o movimento eleitoral, mas o eleitor já não acredita nem mais em si mesmo. Diante dos entrevistadores, muda de opinião em frações de segundo. Diante das urnas, faz o mesmo. O resultado é um cenário em que a incerteza virou quase regra, e cada pleito se torna uma espécie de “duplo mortal carpado” no escuro.
O voto, em vez de uma escolha racional, converteu-se em pura revolta popular. O eleitor já não busca preparo ou competência em seu escolhido; busca apenas um rosto e um nome para encarnar sua raiva. A política, nesse ambiente tóxico, deixou de ser solução e se tornou um reflexo factual do ressentimento coletivo. Obviamente, não tem funcionado.
O espetáculo da antipolítica
A rejeição ao político tradicional abriu espaço para personagens que se apresentam como “não políticos”, mas que, paradoxalmente e de forma oportunista, vivem da política. Com a onipresença das redes sociais, o fenômeno se multiplicou: basta um celular, retórica agressiva e pose indignada, para transformar ressentimento em capital eleitoral.
O Parlamento virou picadeiro e o Executivo, reality show. Em vez de propostas, temos performances teatrais. Em vez de planos de governo, mera lacração. O eleitor, já cansado de tantas frustrações, aplaude. Pouco importa se o eleito tem preparo, maturidade e experiência: o que interessa é gritar mais alto e fazer esguichar “sangue digital”.
A coerência, portanto, não está mais no conteúdo. Só importa o gesto. A cada ciclo, mais outsiders se elegem, prometendo demolir “tudo que aí está”, mas acabam reproduzindo os mesmos vícios anteriores. O eleitor, cúmplice, prefere acreditar que pelo menos sua indignação foi ouvida, ainda que em troca da ruína do país.
Lulopetismo e bolsonarismo
O lulopetismo criou o odiento “nós x eles” e, posteriormente, transformou sua luta contra a Lava Jato em falsa defesa da democracia. O bolsonarismo elevou o jogo à insanidade, transformando o conflito com a esquerda em método permanente. Ambos destruíram a confiança no sistema político e corroeram a ideia de que a política pode melhorar o país.
Nesse ambiente polarizado, florescem populistas digitais, que se elegem sem plano além da gritaria e, uma vez no poder, apenas repetem os vícios que juraram combater. O ciclo se retroalimenta: quanto mais incompetência, mais descrédito; quanto mais descrédito, mais espaço para os mesmos farsantes. O ódio, então, produto da rinha, se retroalimenta.
O dilema – e o problema – não está apenas nos maus políticos, mas na cumplicidade ativa do eleitorado. O voto deixou de ser escolha responsável e virou desabafo. Daí, depois, não adianta reclamar. A pergunta, brutal de tanta simplicidade, continua sem resposta concreta: até quando o Brasil suportará transformar sua frustração em voto; e voto em desastre?
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)