Crusoé: Quando a dor dos outros vira entretenimento
Talvez estejamos assistindo à mercantilização emocional da vulnerabilidade humana
Há algo estranho acontecendo diante dos nossos olhos.
Nunca se falou tanto em empatia. Nunca se exaltou tanto a inclusão, a diversidade, o cuidado e a solidariedade. E, ao mesmo tempo, nunca se observou com tanta intensidade a dor dos outros.
Basta percorrer alguns minutos pelas redes sociais para encontrar centenas de perfis dedicados a narrar o cotidiano de pessoas acometidas por doenças graves, deficiências severas, transtornos mentais incapacitantes ou sequelas irreversíveis.
Mães, pais, filhos, irmãos e cuidadores transformam sua rotina em um diário público de sofrimento.
Acordou.
Tomou remédio.
Teve uma crise.
Não teve uma crise.
Dormiu.
Não dormiu.
Chorou.
Sorriu.
Comeu.
Recusou-se a comer.
Milhares de pessoas acompanham.
Comentam.
Compartilham.
Retornam no dia seguinte para saber o próximo capítulo.
E então surge uma pergunta incômoda: o que exatamente estamos consumindo?
A resposta mais confortável seria afirmar que estamos diante de um grande movimento de conscientização social.
E, em parte, isso é verdade.
Muitas dessas páginas ajudam famílias isoladas. Divulgam doenças raras. Informam. Criam redes de apoio. Rompem o silêncio que historicamente cercou a deficiência, a demência e o sofrimento psíquico.
Mas essa não é toda a história.
Existe algo mais profundo — e mais perturbador.
A lógica das redes sociais transformou praticamente todas as experiências humanas em conteúdo. O nascimento virou conteúdo. O casamento virou conteúdo. A alimentação virou conteúdo. A atividade física virou conteúdo.
Agora, a dor também virou conteúdo.
Talvez estejamos assistindo à mercantilização emocional da vulnerabilidade humana.
Não porque os cuidadores sejam necessariamente movidos por interesses escusos. Muitas vezes são pessoas exaustas, solitárias e invisíveis, buscando reconhecimento para uma tarefa extremamente difícil.
O problema não está apenas em quem produz.
O problema está também em quem consome.
Por que tantas pessoas acompanham diariamente a intimidade do sofrimento alheio?
Por que a rotina de uma pessoa profundamente limitada desperta tanto interesse?
Por que milhares de espectadores aguardam ansiosamente atualizações sobre crises, regressões, internações e dificuldades?
A resposta não parece estar apenas na solidariedade…
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