Crusoé: O vídeo de Michelle e o carisma que não se herda
Vídeo da ex-primeira-dama expõe a colisão entre uma pretensão herdada de Flávio Bolsonaro e um carisma vivo de Michelle
Por Rodrigo Prando
Em pouco mais de vinte e seis minutos, divididos em duas postagens publicadas na véspera de um jogo da Seleção, Michelle Bolsonaro (foto) fez aquilo que nenhum adversário do bolsonarismo havia conseguido: expôs, de dentro, a fragilidade de sua própria sucessão. E mais: acabou dando uma aula de política aos filhos de Bolsonaro, sem gritar, sem estridência. Não é, apenas, briga de família, “lavar roupa suja em público”. Não. É mais profundo que isso.
O cerne da questão é o espólio político e eleitoral de Bolsonaro, inelegível e preso. O senador Flávio Bolsonaro, seu filho, foi o escolhido pelo pai. Todavia, atravessou, nas últimas semanas, sucessivos desgastes.
O maior deles, o áudio enviado a Daniel Vorcaro. Agora, as publicações de Michelle podem ser colocadas na segunda posição de problemas na pré-candidatura.
O pano de fundo da disputa no Ceará, trazida à tona por Michelle, é somente a ambientação de uma movimentação maior.
Michelle não apenas se defende do que chama de “punhalada”, de ter sido maltratada por Flávio e seus irmãos. Em verdade, a ex-primeira dama responde ao clã Bolsonaro que não é neófita na política e apresenta suas credenciais.
Convém, inclusive, retomar, ainda que, panoramicamente, alguns autores clássicos da Política.
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Maquiavel
Maquiavel, autor de O Príncipe, costuma ser invocado de modo apressado para dizer que herdar um reino é frágil.
O secretário florentino afirmava o contrário: os principados hereditários, enraizados no costume e na longa linhagem, são os mais fáceis de manter. A fragilidade não está na herança em si — está em herdar um principado que ainda é novo, antes que ele se tenha sedimentado em hábito e tradição. E é esse, exatamente, o caso bolsonarista.
O bolsonarismo é um principado novo, fundado por Jair com a virtù e a fortuna de quem conquista. Flávio não o conquistou: recebeu-o de mão em mão, sem o tempo que converte fundação em dinastia e sem as armas próprias que fundaram a coisa.
Tem, portanto, a insegurança do príncipe novo — sem virtude comprovada, dependente de autoridade emprestada —, sem a estabilidade do herdeiro de um trono antigo. É a pior das posições maquiavélicas.
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Weber
Max Weber, por sua vez, nos ensinou que o carisma é…
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