Pior que o vídeo de Michelle foi a reação de Flávio Bolsonaro
Primeira reação do senador ao vídeo de desabafo da presidente do PL Mulher só endossa a má impressão do eleitorado feminino sobre ele
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tinha duas bombas armadas no caminho de sua candidatura presidencial. Uma delas só foi conhecida quando estourou, ao serem reveladas as mensagens que ele trocava com o banqueiro Daniel Vorcaro para o patrocínio do filme Dark Horse.
A segunda tinha sido armada em dezembro de 2025, aos olhos de todo o país, quando os filhos de Jair Bolsonaro repreenderam publicamente sua madrasta, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (foto), que preside o PL Mulher, por tentar interferir nas alianças do PL para a eleição deste ano.
Essa bomba estourou na quarta-feira, 24, com um vídeo publicado pela mulher do ex-presidente para desabafar sobre a reprimenda dos filhos de seu marido naquela ocasião. A bronca de Michelle nos bolsonaristas do Ceará suspendeu a aliança com o ex-governador Ciro Gomes (PSDB), mas também comprometeu o trabalho de base que a ex-primeira-dama vinha fazendo no PL Mulher.
PL Mulher
Michelle botou para fora ontem tudo o que tinha guardado — e vinha remoendo — há sete meses, destacando que foi convidada pelo próprio Bolsonaro e pelo presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, para participar com protagonismo das atividades do partido há três anos.
“Para que todo o contexto fique claro, eu preciso voltar um pouco no tempo. Tudo começou em 2023”, contou a ex-primeira-dama, detalhando como foi convidada para liderar o PL Mulher.
“Ele e o presidente Valdemar conversavam sobre os rumos do partido, o que ficou para trás, o que ainda podia ser construído, e percebeu uma lacuna, as mulheres, um público enorme, poderoso e que ainda via Jair com desconfiança. Não tinha uma estrutura partidária que falasse de verdade com elas”, descreveu Michelle, descrevendo o problema que o pai legou para o filho senador.
“Eu aceitei, mas fui muito honesta. Olhei para o meu galego e disse: ‘Jair, você sabe que eu não assumo missão para viver um faz de conta’. Eu já sabia o tamanho do que estava sendo pedido e eu tinha visto de perto, na caravana Mulheres com Bolsonaro, em 2022, idealizada pela nossa governadora Celina Leão, para ajudar na eleição do meu marido. Ao lado de Celina, Damares [Alves], Teresa Cristina e tantas outras guerreiras, eu vi o que era levar essa mensagem de esperança viajando pelo Brasil inteiro. Era sacrifício real, era entrega real. Ele olhou para mim e disse que sabia que seria difícil para todos nós, mas que era necessário. E assim eu fui”, lembrou a presidente do PL Mulher no vídeo, antes de destacar os frutos de seu trabalho.
Michelle disse que o PL Mulher só existia no papel, que teve de criá-lo “praticamente do zero”. E destacou também que ela e Bolsonaro têm um “carinho muito especial pelo povo cearense”.
É nesse contexto que ela se sentiu “humilhada”, como relatou, ao ser desautorizada quando tentou influenciar nos rumos do PL, principalmente porque o fazia sob as ordens do próprio Bolsonaro.
“Em 2026, serão 54 vagas para o Senado Federal. Em comparação, se aplicarmos a regra dos 30% para candidaturas femininas, teríamos direito a 17 vagas para mulheres no partido. Eu pedi apenas três: Priscila Costa, Carol de Toni e Bia Kicis. Três vagas, de 17 que poderíamos ter. E tem sido uma batalha diária para manter essas três”, resumiu a ex-primeira-dama.
A vereadora de Fortaleza Priscila Costa (PL), vice-presidente do PL Mulher, foi o pivô, portanto, da intervenção de Michelle no estado. Já a deputada federal Carol de Toni (PL-SC) esteve prestes a deixar o PL por causa da pré-candidatura do ex-vereador Carlos Bolsonaro ao Senado em Santa Catarina, que bagunçou as alianças do partido no estado.
“Nada nem ninguém vai me aborrecer”
Na tentativa de contornar a crise, Flávio publicou um longo texto no qual pede desculpas a Michelle, que disse que “ele foi muito ríspido”, a desrespeitou e maltratou ao telefone e disse que ela “havia chegado ontem e não entendia nada de política” após sua intervenção no Ceará .
O problema é que, antes de publicar seu pedido de desculpas públicas, o senador desdenhou do vídeo de Michelle, o que endossou a impressão projetada pela ex-primeira-dama, de que o filho 01 de Bolsonaro não respeita sua atuação política — e, por consequência, das mulheres.
“Hoje, dia de jogo, nada nem ninguém me aborrece. Vamos tratar aqui de coisa boa, tratar aqui de futebol… porque a gente vai conseguir resgatar juntos, eu tenho certeza disso”, disse o senador durante uma live antes da partida entre Brasil e Escócia, pela Copa do Mundo.
Enquanto a mulher de Flávio, Fernanda, apareceu para defender o marido, os aliados dos filhos de Bolsonaro se mobilizam para desqualificar Michelle — e se comportam como se estivessem ajudando o senador, e não atrapalhando ainda mais sua pretensão presidencial.
Michelle, que botou panos quentes na história na manhã desta quinta-feira, 25, foi colocada por Bolsonaro e Valdemar numa posição estratégica, para solucionar um problema específico do partido e da família, ao tentar melhorar a imagem entre as mulheres. Nem assim ela foi aceita pelos filhos do ex-presidente. Não tem propaganda com esposa e filhas que mascare ou corrija isso.
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