Com o Supremo, com tudo, de novo?
A atual crise moral do STF começou com a derrubada da Operação Lava Jato, e vai ser ainda mais custoso repetir o truque
A Operação Lava Jato começou a ruir quando se aproximava do Judiciário. Foi em 2019 que o Supremo Tribunal Federal (STF) começou a se desfazer do capital político conquistado com o julgamento do mensalão, que deu ao Brasil alguma esperança de justiça.
O inquérito das fake news e a suspensão de investigações baseadas em dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) marcaram a reação do STF à aproximação de investigações que poderiam afetar ministros da Corte.
Nos anos seguintes, condenações da Lava Jato seriam anuladas em série, por questões técnicas que evitariam que o mérito dos crimes descobertos pelos investigadores fosse julgado.
Crise moral
Foi esse processo de desmontagem da investigação sobre o maior esquema de corrupção já descoberto no Brasil que jogou o STF na crise moral enfrentada atualmente.
A derrubada da Lava Jato foi imortalizada por uma frase dita pelo ex-senador Romero Jucá, flagrado em um diálogo com Sergio Machado sobre um acordo “com o Supremo, com tudo”.
Os ministros do tribunal tentaram reagir ao desgaste provocado pelas decisões que beneficiaram réus confessos alegando que estavam do lado da democracia, e Jair Bolsonaro se prestou, durante algum tempo, ao papel de inimigo das instituições durante o processo da trama golpista.
De novo?
Com Bolsonaro preso, o STF perdeu seu escudo, e bem no momento em que o hábito de seus ministros de frequentar políticos e empresários deu os piores frutos, no caso do Banco Master.
Dias Toffoli, um dos ministros enrolados no caso, tentou “matar no peito”, para usar uma expressão celebrizada por um colega de Corte, mas teve de deixar a relatoria do processo após uma série de decisões inexplicáveis, e também o fez de forma inexplicável, sem se declarar suspeito.
Agora, Alexandre de Moraes, atormentado pelo contrato de 129 milhões de reais firmado pelo Master com o escritório de sua mulher, voltou ao foco, com o surgimento de troca de mensagens com Daniel Vorcaro no dia da prisão do banqueiro, que o ministro do STF nega.
Desgaste
Em meio ao avanço das investigações e às pressões no Congresso Nacional, o decano do STF, Gilmar Mendes (foto), reclamou da “exposição pública de conversas de cunho estritamente privado” e disse que “ao permitir a publicação de diálogos íntimos de um casal, o Estado e seus agentes não apenas falham em seu dever de guarda, mas desrespeitam a legislação”.
O comentário foi interpretado como um dos vários caminhos possíveis para anular a investigação. A tomar pelo histórico das grandes operações contra a corrupção do Brasil, como a Castelo de Areia e a Satiagraha, entre outras, não seria nada surpreendente.
Já começam a circular recados de ministros do STF sobre a necessidade de fazer “ajustes” na Polícia Federal. Diante de uma operação que revelou o que parece ser uma tentativa de cooptação de autoridades para proteger um banco fraudulento, é de se perguntar que ajuste precisaria ser feito.
O fato é que o STF chegou a sua atual crise moral por ter feito alguns “ajustes” para proteger os seus, e tentar o truque de novo vai ser ainda mais custoso para o tribunal — se é que eles se importam mesmo com isso.
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