Alemanha paga preço alto por décadas de progressismo com crise econômica e política
Estagnação industrial e crise política expõem o fracasso de um modelo que a nova coalizão de governo não consegue reverter
A maior economia da Europa enfrenta um dos maiores desafios de sua história recente.
Clemens Fuest, presidente do Instituto Ifo de Munique, alertou para um “declínio econômico dramático” que ameaça o bem-estar do país.
O PIB alemão está praticamente estagnado desde 2018, com projeção de crescimento de apenas 0,2% em 2025, segundo o próprio Ifo.
A crise é estrutural, não apenas conjuntural. Desde 2015, o consumo público cresceu 25%, enquanto o investimento privado caiu 10%. O país se tornou mais dependente do Estado e menos dinâmico no setor produtivo.
O colapso industrial é o sintoma mais visível dessa transformação. Em agosto, a produção industrial recuou 5,2%, a maior queda mensal em três anos. O setor automotivo, símbolo do poder econômico alemão, despencou 18,5%. No total, a indústria opera 9% abaixo do nível pré-pandemia.
O principal fator é o custo energético.
A transição verde (Energiewende), com o abandono da energia nuclear e a ruptura do fornecimento de gás russo, elevou drasticamente o preço da eletricidade. As fábricas alemãs agora pagam quase o dobro da tarifa de energia de suas concorrentes nos Estados Unidos e na Ásia.
A sobrecarga burocrática agrava o cenário.
Um estudo do Ifo, feito para a Câmara de Comércio de Munique, estimou que a burocracia excessiva custa € 146 bilhões por ano em produção perdida.
As regras mais caras estão ligadas à agenda climática e social, como a Lei de Cadeias de Suprimentos, que impõe custos adicionais às exportações.
O peso do modelo social alemão também pressiona as contas públicas.
A abertura das fronteiras em 2015 trouxe 2,6 milhões de pedidos de asilo. Dez anos depois, o próprio chanceler Friedrich Merz, da União Democrata-Cristã (CDU), admitiu que o país “claramente não conseguiu” integrar essa população.
O governo retomou deportações e firmou acordos com países como Afeganistão e Síria.
O descontentamento popular mudou o mapa político. A Alternativa para a Alemanha (AfD) tornou-se a segunda maior força parlamentar, com 20,8% dos votos nas eleições de fevereiro e vitórias em estados do leste.
Liderada por Alice Weidel, a legenda propõe abandonar o Acordo de Paris e reativar a energia nuclear, defendendo uma guinada pró-indústria.
Apesar do avanço, a AfD permanece isolada. Todos os demais partidos mantêm o “cordão sanitário” e recusam qualquer aliança. O resultado é uma paralisia de poder.
Merz governa com o Partido Social-Democrata (SPD) em uma grande coalizão, dependente da esquerda para aprovar medidas econômicas.
Sem maioria alternativa, o governo recorre a truques fiscais. O orçamento de 2025 criou um fundo especial de € 500 bilhões para infraestrutura, burlando o limite constitucional de endividamento.
O Fundo Monetário Internacional alertou para “desafios estruturais profundos”, mas o consenso político impede reformas.
A Alemanha segue presa a um modelo que combina alta carga regulatória, custos energéticos proibitivos e políticas sociais insustentáveis — um preço alto por décadas de progressismo que o país agora luta para pagar.
- Leia mais:
Crusoé: “O que realmente pensa a Afd” https://oantagonista.com.br/mundo/crusoe-o-que-realmente-pensa-a-afd/
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Comentários (3)
Marcia Elizabeth Brunetti
29.10.2025 10:11E pensar que a Alemanha já foi modelo para o mundo...
Marian
28.10.2025 13:11Parece estar se desmilinguindo de fato
Maglu Oliveira
28.10.2025 12:13Nenhum partido quer fazer coalisão com o AfD porque é um partido de neonazis. Simples assim. É melhor governar com a esquerda (SPD) que não é como a esquerda brasileira, partido de irresponsáveis, a começar pelo líder, ela é muito mais moderada. O AfD é um partido de populistas e hipócritas. A própria chefe é lésbica, mora com uma mulher do Sri Lanka na Suiça, tudo que o partido combate. Parecem mais progressistas do que ultra direita. A maioria que vota nele é gente do leste alemão, antiga Alemanha Oriental, gente que perdeu o bonde da reunificação de fato. Lembra-me muito o PSOL que vive chorando a morte de um comunismo que nunca deu certo. Por eles o muro seria colocado de volta, mas conservando todos os benefícios que adquiriram depois de 1989 sem pagar nenhum centavo por isso. Como é que dizíamos na escola? enabunadanunvadinha?