“A maioria dos alemães quer as políticas da AfD – mas sem a AfD”
Christopher Caldwell analisa as eleições alemãs e o dilema do novo governo sobre imigração e alianças
O jornalista e ensaísta americano Christopher Caldwell publicou nesta segunda, 24, no The Free Press, o artigo “A última chance do establishment alemão” (The German Establishment’s Last Chance), em que analisa os resultados das eleições legislativas da Alemanha e as dificuldades políticas do vencedor, Friedrich Merz, líder da União Democrata-Cristã (CDU).
A eleição teve uma participação recorde de 83% dos eleitores e consolidou a ascensão do partido de direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que ficou em segundo lugar com 21% dos votos.
“A maioria dos alemães quer que ele [Merz] implemente as políticas da AfD—mas sem a AfD”, escreve Caldwell. O dilema central, segundo ele, é se o novo governo será capaz de conter a imigração sem fazer concessões ao partido que mais vocaliza essa demanda.
A crise migratória, destaca Caldwell, se tornou o tema dominante da campanha. O jornalista cita uma série de crimes violentos cometidos por imigrantes, incluindo o assassinato de um bebê de 2 anos por um refugiado afegão em janeiro e um ataque fatal a um turista espanhol no Memorial do Holocausto, em Berlim, na véspera da eleição.
“Apenas a AfD tem falado sobre essas coisas de maneira direta”, observa Caldwell, lembrando que a líder do partido, Alice Weidel, fez da criminalidade entre imigrantes um dos principais eixos de sua campanha.
Merz, que retorna ao poder após o longo domínio de Angela Merkel na CDU, enfrenta uma encruzilhada: ao mesmo tempo em que precisa endurecer políticas migratórias para conter o crescimento da AfD, deve manter a chamada Brandmauer—um “muro de contenção” que impede qualquer aliança com o partido de direita.
A tentativa do novo chanceler de endurecer as regras migratórias gerou reações intensas. Após um ataque em janeiro, ele propôs uma legislação para expulsões rápidas de imigrantes sem direito de permanência.
Uma resolução nesse sentido passou, mas uma proposta para restringir a reunificação familiar fracassou. Ao mesmo tempo, ele reafirmou que “nunca governaria com a AfD”, o que gerou críticas de inconsistência até da grande imprensa alemã.
Além da questão migratória, a eleição evidenciou a fragilidade econômica da Alemanha, que encolheu por dois anos seguidos. Gigantes industriais como Volkswagen e Bosch estão promovendo demissões em massa, enquanto a aliança com os EUA se torna cada vez mais onerosa.
“Passo a passo, podemos alcançar a independência dos EUA”, declarou Merz após a eleição—uma mudança de tom surpreendente para um político historicamente pró-Ocidente.
O resultado eleitoral também revelou um sistema político sob pressão.
Dois partidos de direita anti-imigração—o FDP e a recém-criada Aliança Sahra Wagenknecht, dissidência da esquerda—ficaram abaixo do mínimo de 5% necessário para entrar no parlamento. Isso significa que 10% do eleitorado ficará sem representação no Bundestag.
No fim, Caldwell sugere que o grande teste para Merz será sua capacidade de conter a ascensão da AfD sem recorrer a alianças formais com o partido.
Uma coalizão entre CDU e os social-democratas de Olaf Scholz é possível, mas teria uma base parlamentar frágil, com apenas 45% dos votos.
Caso falhe, alerta Caldwell, isso “validaria a alegação da AfD de que Merz não pode resolver a imigração porque seu vínculo com o sistema é maior do que com os eleitores”.
Quem é Christopher Caldwell
Christopher Caldwell é um jornalista e ensaísta americano, conhecido por seus textos sobre política europeia e imigração.
Foi colunista do Financial Times e da Weekly Standard. Seu livro Reflections on the Revolution in Europe (2009) analisa o impacto da imigração muçulmana no continente. Em 2020, lançou The Age of Entitlement, sobre mudanças políticas e culturais nos EUA desde os anos 1960.
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