A nossa burrice a gente inventa, pra se distrair. Sorte dos políticos
Por isso, líderes populistas sobrevivem por décadas, mesmo fracassando vergonhosamente em suas promessas
O maior truque do Diabo foi convencer o mundo de que ele não existia. A frase, popularizada pelo personagem Verbal Kint em Os Suspeitos, de 1995, protagonizado pelo genial Kevin Spacey, costuma ser atribuída a Charles Baudelaire, embora não haja consenso absoluto. Mas pouco importa. A ideia atravessou décadas porque toca num ponto central da experiência humana: o poder da ilusão como mecanismo de sobrevivência.
Já o maior truque dos políticos contemporâneos é convencer a sociedade de que ainda existe algum debate público sério, quando o que há, em grande medida, é apenas distração organizada. Um palco onde os palhaços são os eleitores. Não se discute mais para compreender. Discute-se para ocupar emocionalmente as pessoas. A política deixou de ser instrumento racional de mediação coletiva e virou entretenimento de massa.
Uma espécie de reality show moral, tribal, histérico. O objetivo não é resolver problemas, mas manter a plateia excitada, indignada, mobilizada e dependente do próximo escândalo. Se possível, com muito ódio. Roma já fazia isso há dois mil anos. “Pão e circo” não era metáfora, era política de Estado. Enquanto o Império enfrentava corrupção, decadência e concentração brutal de renda, multidões eram anestesiadas por gladiadores.
Não é de hoje
Juvenal escreveu isso no século I. Nada mudou tanto assim. Só trocamos o Coliseu pelo Instagram. O entretenimento atual é mais eficiente porque invade tudo ao mesmo tempo: esporte, cultura, religião, militância política, redes sociais. Até causas humanitárias legítimas acabaram absorvidas pela lógica do engajamento. O importante deixou de ser a verdade e passou a ser audiência e o número de likes.
Guy Debord já havia percebido isso em 1967, quando lançou A Sociedade do Espetáculo. Sua tese central era simples: a realidade havia sido substituída por representações da… realidade! Décadas depois, Neil Postman aprofundaria a ideia em Amusing Ourselves to Death, de 1985, ao alertar que sociedades não costumam morrer apenas pela censura, mas também pelo excesso de distração, e a política entendeu isso perfeitamente.
Hoje, governos, partidos, lideranças e militâncias produzem conflitos em escala industrial porque geram audiência – e audiência produz poder! Não importa se o tema é relevante ou ridículo. Importa que as pessoas permaneçam emocionalmente entorpecidas. Um país discutindo frases de Nikolas, bonés de Lula e tweets de Janja é um país que não discute produtividade, educação, dívida pública, segurança, reforma administrativa.
Religião, claro
Vivemos em um eterno estado de distração com aparência de democracia. Enquanto torcidas ideológicas brigam como organizadas de futebol, o Estado cresce, a máquina avança, corporações se blindam e grupos econômicos seguem capturando privilégios. A gritaria pública, a partir dos próprios beneficiados, acaba funcionando como fumaça, sempre útil para esconder os movimentos reais de quem investe em manipulação.
A religião também cumpre papel semelhante. Marx chamou-a de “ópio do povo”, em 1843, não foi à toa. Freud via a crença religiosa como mecanismo psíquico de proteção diante da angústia da finitude e da insignificância humana. Já Ernest Becker, em A Negação da Morte, de 1973, foi ainda mais longe e cruel: o ser humano cria sistemas simbólicos inteiros para conseguir suportar a consciência da própria insignificância.
Pois talvez esteja aí a raiz de tudo. O homem precisa desesperadamente distrair-se de si mesmo. Por isso, inventa de tudo para fugir dessa dor: guerras, religiões, ideologias, Olimpíadas, novelas, redes sociais, patriotismos, revoluções, Copa do Mundo, influencers, celebridades, messianismos baratos. A política moderna apenas profissionalizou essa necessidade humana de distração e a distribuiu massivamente pela internet.
Para pensar e decidir
Por isso, líderes populistas sobrevivem por décadas, mesmo fracassando vergonhosamente em suas promessas. Eles não precisam mais entregar soluções, apenas fornecer algum sentido emocional e o combustível para se detestar quem pensa diferente. Precisam manter viva a tal sensação de pertencimento, luta, missão e ódio pelo inimigo comum. O eleitor contemporâneo não quer eficiência. Ele só busca identidade e alguma anestesia.
Na verdade, como um bom ser humano em eterno estado de desamparo e desesperança, o eleitor comum busca apenas uma narrativa que lhe permita atravessar a dureza da existência sem encarar de frente o vazio existencial dilacerante. No fim, o grande truque da ilusão talvez nem seja dos políticos, Talvez seja nosso mesmo. Porque no fundo, no fundo, quase ninguém quer realmente encarar a realidade.
Sei que não é um tema fácil e uma leitura agradável para um domingo. Mas a leveza não cai do céu. Ela é conquistada a duras penas, com muito autoconhecimento e alguma dose de sofrimento. Aceitar nossa condição de esnobe brega diante do bobo da corte é parte do processo de crescimento e de blindagem contra políticos picaretas. Assim, quem sabe, daqui a alguns anos, não estejamos no papel inverso?
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Comentários (3)
Duilio Ribeiro Barbosa
25.05.2026 10:04Brilhante! Muito obrigado.
Marcos
24.05.2026 17:12SE TEM ALGO PIOR QUE A BURRICE É O BRASILEIRO. MUITO PIOR.
Márcio Roberto Jorcovix
24.05.2026 13:46Texto muito bom Ricardo. Parabéns