A fragilidade da oposição ao lulopetismo
O bolsonarismo não é oposição, é simulação de oposição. Posa de guardião da moralidade, mas na prática toma o Estado como trincheira pessoal
Após alguns dias relativamente recluso e longe dos holofotes da sabujice bolsonarista, na segunda-feira, 29, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), foi à Brasília visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro em sua casa, onde cumpre prisão cautelar imposta pelo STF. Na saída, ao lado do senador Flávio Bolsonaro, Tarcísio afirmou que seus planos para 2026 passam longe da disputa presidencial, que irá tentar a reeleição e que, por ora, está focado no tal projeto de anistia ampla, geral e irrestrita pretendida pelos bolsonaristas.
O governador tem sido bombardeado por aliados do ex-presidente, que o consideram uma espécie de oportunista traidor. Especialmente Eduardo Bolsonaro, que tem o atacado de forma direta. Em 7 de setembro passado, na Avenida Paulista em São Paulo, Silas Malafaia passou-lhe um belo pito público, mostrando que a fragmentação da oposição ao lulopetismo não é mero acidente, mas resultado direto de um bloco político que nunca se estruturou como alternativa real de poder e serve tão somente aos propósitos personalistas do clã Bolsonaro.
O que se convencionou chamar de “direita”, no Brasil, segue refém da lógica da seita bolsonarista, incapaz de formular um programa de Estado ou mesmo um rascunho de projeto mínimo de governo. Seu método de atuação é o grito em rede social, manifestações de rua com a presença majoritária de pessoas com mais de 40 anos e de classe média – longe, portanto, do perfil do eleitor médio brasileiro – e truculência política no Congresso Nacional, como recentemente, no patético episódio de ocupação da mesa diretora da Câmara dos Deputados.
Sem eira nem beira
O bolsonarismo, ao capturar o anti-lulismo, transformou um campo que poderia se abrir para debates liberais, conservadores ou sociais em mero culto personalista. E, nesse culto, a agenda jamais foi fiscal, administrativa, tributária, educacional ou segurança pública. É exclusivamente patrimonial: anistia para golpistas e seus cúmplices, proteção do clã Bolsonaro e ataques ao governo Lula. A ausência de uma oposição decente não apenas perpetua o labirinto político do país, como abre espaço para a recuperação de um presidente em queda livre.
Desde a fuga de Eduardo Bolsonaro para os EUA e a alopragem sistemática contra o Brasil, a pretexto de ajudar o pai, apoiada pelo próprio e pela bancada TikTok – com Nikolas Ferreira como símbolo do histrionismo -, pesquisas de opinião mostram melhora na aprovação de Lula. Se o tarifaço de Trump forneceu oxigênio para o petista, a virulência bolsonarista consolidou a recuperação. E a aplicação da Lei Magnitsky contra ministros do STF ofereceu a Lula o discurso pronto de vítima institucional e guerreiro pela soberania nacional.
Para completar, a PEC da Blindagem, rebatizada merecidamente como PEC da Bandidagem, liderada pelo PL, de Valdemar Costa Neto e seus prepostos, explicitou que não há interesse do bolsonarismo pelo Brasil, mas apenas na sobrevivência do “mito” e de parlamentares suspeitos. Esse quadro cristalizou algo evidente: o bolsonarismo não é oposição, é simulação de oposição. Quando convém, posa de guardião da moralidade, mas, na prática, toma o Estado como trincheira pessoal, esmagando a República em nome de “Deus, Pátria e Família”.