A antecipação do voto útil e o enterro da terceira via
Flávio Bolsonaro e o presidente Lula começam a concentrar boa parte dos votos já na reta final da campanha eleitoral
Há um movimento silencioso, mas cada vez mais perceptível, tomando conta da eleição presidencial: o voto útil parece ter começado antes mesmo de o primeiro turno chegar. A nova pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada nesta quarta-feira, 23, mostra Lula e Flávio Bolsonaro concentrando 89,3% dos votos válidos, enquanto os demais candidatos despencam para uma faixa residual.
O dado mais eloquente talvez não esteja apenas na fotografia atual, mas na curva. O levantamento realizado entre 17 e 22 de setembro registra Lula com 45,8% e Flávio com 43,4%. Renan Santos aparece com 4,5%; Augusto Cury, com 2,1%; Ronaldo Caiado, com 1,3%; e Romeu Zema, com 0,9%.
É uma transformação significativa em relação ao que se via poucas semanas atrás. Renan Santos chegou a 9% na pesquisa RealTime Big Data de julho, quando aparecia isolado na terceira colocação. Cury, por sua vez, viveu uma ascensão ainda mais impressionante no fim de agosto e começo de setembro: alcançou 10% na Quaest e chegou a 11% no BTG/Nexus e na RealTime Big Data.
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Renan Santos e Augusto Cury viraram nanicos
Agora, os dois aparecem muito abaixo desses picos. A pesquisa Atlas/Bloomberg registra uma trajetória especialmente clara no caso de Renan: o candidato chegou a 7,8% em junho e julho, recuou para 6,5% em 5 de setembro, caiu a 5,1% em 17 de setembro e agora marca 4,5%. Cury também perdeu terreno na reta final.
A impressão é a de que o eleitor começou a fazer, antecipadamente, uma conta que tradicionalmente ganha força apenas nas últimas semanas de uma eleição: qual candidato tem condições reais de chegar ao segundo turno?
Não é possível afirmar, apenas a partir da pesquisa, que cada ponto perdido pelos candidatos tenha migrado diretamente para Lula ou Flávio. Pesquisa eleitoral é uma fotografia, não um rastreamento individual do voto. Mas a concentração dos dois primeiros colocados fornece um indício importante sobre o ambiente em que essa decisão está sendo tomada.
O enterro da terceira via
O movimento não precisa ser coordenado por partidos ou campanhas. Pode ocorrer espontaneamente, à medida que pesquisas sucessivas produzem uma percepção de viabilidade. E aí é que a terceira via pode ter morrido de vez em 2026.
O caso de Augusto Cury é particularmente ilustrativo. Entre o fim de agosto e o início de setembro, o escritor chegou a ocupar a terceira posição em diferentes levantamentos. Na Quaest divulgada em 2 de setembro, marcou 10%; na Futura/Apex, chegou a 9,9%; e na RealTime Big Data, 11%.
Na pesquisa Datafolha de 3 de setembro, apareceu com 8%, enquanto Lula tinha 38% e Flávio, 33%.
A partir daí, porém, sua curva mudou. No Atlas/Bloomberg, Cury está agora em 2,1%. No levantamento, ele sequer aparece próximo da faixa que havia alcançado durante o auge de sua candidatura.
O mais curioso é que isso acontece antes da reta final propriamente dita. Faltam poucos dias para a votação, mas a sensação produzida pelos números é de que parte do eleitorado já começou a votar com o segundo turno na cabeça.
Ou que ele já está de saco cheio de eleição. E, diante da inevitável polarização entre Lula e Flávio no segundo turno, talvez o eleitor já queira resolver isso de uma vez por todas para voltar à sua vida normal.
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