Flávio troca bolsonarismo por tarcisismo
Pragmatismo na reta final da campanha indica que o círculo de influência do bolsonarismo se expandiu para além da família
Se um dia o tarcisismo se impuser como forma de fazer política para além de Tarcísio de Freitas (Republicanos), 23 de outubro de 2026 ficará marcado como o dia de seu nascimento.
Após a agressivo debate da Band, no qual Flávio Bolsonaro (PL-RJ, foto) perseguiu Lula (PT) como o Coiote persegue o Papa-Léguas, assim como seu pai tinha feito com o mesmo Lula quatro anos antes, o senador adotou um tom mais ameno e humilde no debate da Globo.
A campanha, de fato, trocou o bélico influenciador Pablo Marçal pelo governador de São Paulo como preparador do candidato à Presidência da República, e Flávio chegou a recitar números e obras, bem ao estilo de Tarcísio, que cultiva a fama de engenheiro disciplinado.
Mais do que uma estratégia eleitoral, a mudança de tom pode indicar um caminho para um futuro governo Flávio Bolsonaro, cuja candidatura frustrou cedo, ainda em dezembro de 2025, as expectativa de quem torcia para que Tarcísio concorresse ao Palácio do Planalto.
Sem espaço, o governador partiu para a missão óbvia de tentar se reeleger em São Paulo, e não teve qualquer dificuldade para vencer o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, que mais uma vez perdeu uma eleição no primeiro turno.
Tarcisismo
O pragmatismo de Flávio na reta final da campanha indica que o círculo de influência do bolsonarismo se expandiu para além da família.
O deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro passou boa parte do ciclo eleitoral atacando e cobrando abertamente aliados como Tarcísio e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), pela falta de submissão cega às instruções que emanavam dos filhos do ex-presidente.
Mas Tarcísio e Nikolas, que organizou atos de rua por todo o país e incomoda os petistas com seu expressivo alcance nas redes sociais, se mostraram essenciais para a caminhada de Flávio.
Não por acaso, o senador fez questão de mencionar no debate de sexta-feira, 23, aliados como o governador reeleito de Santa Catarina, Jorginho Melo (PL), e os governadores eleitos do Rio Grande do Sul, Luciano Zucco (PL), e do Paraná, Sérgio Moro (PL), num sinal de que o movimento se expandiu para além da família, para abrigar, inclusive, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que chegou a ser descartada logo no início da pré-campanha do senador.
Futuro
Flávio flerta com a promessa de que Tarcísio estará na linha sucessória da família em caso de vitória no domingo, já que as regras impedem que parentes disputem a Presidência na sequência de um familiar e o senador propagandeia seu compromisso com o fim da reeleição.
Seria inocência, contudo, acreditar que a tensão entre as expectativas da família Bolsonaro e a expansão de seu círculo de influência não estará presente em um futuro governo Flávio.
Eduardo e seus aliados seguem tentando influenciar os rumos do movimento do exterior e obviamente vão cobrar seu quinhão em caso de vitória. Mas é inevitável constatar que o bolsonarismo familiar se enfraqueceu nesta campanha, ironicamente para o seu próprio bem.
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