Flávio não será eleito para fazer um novo governo Bolsonaro
Presidentes brasileiros têm lido errado o recado das urnas desde pelo menos 2010, e pagaram o preço por isso ao longo dos mandatos
Os presidentes eleitos no Brasil têm lido errado o recado das urnas desde pelo menos 2010. Dilma Rousseff pensou que tinha sido eleita naquele ano (na verdade foi Lula), a ponto de partir para a reeleição em 2014, que culminou em seu impeachment dois anos depois.
Desde a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, os presidentes passaram a ser eleitos no Brasil pela rejeição da outra alternativa. Bolsonaro foi eleito porque Lula estava preso, e o petista se elegeu em 2022 pela ojeriza à condução da pandemia pelo adversário.
Mas ambos, Lula e Bolsonaro, se comportaram como se tivessem sido aclamados apoteoticamente pelas urnas, e acabaram pagando o preço por isso ao longo de seus mandatos.
Os bolsonaristas dão alguns sinais, após a expressiva votação do primeiro turno, de que podem enveredar por esse mesmo caminho, e a eleição ainda nem acabou.
Tirar Bolsonaro da cadeia já será incômodo o bastante para boa parte do eleitorado independente que optou por Flávio Bolsonaro (PL-RJ, ao centro na foto) no primeiro turno, mas o senador e seus aliados nunca esconderam, ao longo da campanha, que o fariam caso fossem escolhidos — e a anulação das condenações de Lula por corrupção amortece o impacto de uma anistia a Bolsonaro.
Jair 2.0?
Daí a tentar repetir o governo do ex-presidente condenado por tentativa de golpe de Estado há uma distância muito grande. O governo de Jair foi rejeitado em 2022, contra esse mesmo Lula que agora é rejeitado junto com seus aliados do Supremo Tribunal Federal (STF).
As especulações sobre o possível Ministério do filho 01 de Bolsonaro, publicadas por O Antagonista, incluem o deputado federal cassado Alexandre Ramagem no comando da Polícia Federal, o que nem Bolsonaro conseguiu fazer, por proibição do ministro do STF Alexandre de Moraes, e o deputado federal Mario Frias (PL-SP) na Cultura, o que já não deu muito certo no governo passado, quando ele nem tinha produzido Dark Horse.
É compreensível que os bolsonaristas queiram prestigiar e até recompensar aliados de trincheira caso retornem ao poder, mas isso terá de ser sopesado, porque evidentemente vai impor custos políticos em um governo que terá problemas o bastante para lidar com as contas públicas destroçadas.
Uma coisa é o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro ser indicado como embaixador dos Estados Unidos, com menos protagonismo, outra é empossá-lo como chanceler do Brasil.
Além do mais, hoje o bolsonarismo já reúne muito mais quadros do que tinha em 2019, quando o ex-presidente precisou recorrer aos militares para compor o governo — e o desfecho dessa história fala por si, por mais que os bolsonaristas possam reclamar do julgamento da trama golpista.
“Conselheiro”
Flávio tem tomado o cuidado de indicar que seu pai não terá função em um possível novo governo Bolsonaro, e mesmo que não poderá ser candidato em 2030, caso seja aprovado o fim da reeleição, como ele diz que pretende fazer, porque a lei impede candidatura de parentes até terceiro grau.
“O presidente Bolsonaro nunca me pediu, nunca discutiu o espaço no governo, participar ou não. Eu sempre disse que ele vai ser eternamente o meu professor, é o meu conselheiro, para quem eu sempre vou perguntar alguma coisa”, disse o senador ao contrapor o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que se referiu a Bolsonaro como “forte candidato” para 2030.
Coordenador da campanha de Flávio e potencial presidente do Senado ou ministro da Casa Civil num futuro governo, o senador Rogério Marinho (PL-RN) também demonstra que tem noção do desafio, ao indicar veto a radicais na composição do governo.
Esse discurso é o mínimo para manter a perspectiva de poder conquistada pela família Bolsonaro no primeiro turno. Mas, caso a vitória se confirme, essa moderação terá de se refletir na condução do Palácio do Planalto, sob o risco de o rejeitado pelas urnas em 2030 ser, de novo, o bolsonarismo.
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