Mais de cem espécies de pássaros conquistaram as Américas e o DNA agora reconstrói por onde os ancestrais dos icterídeos se espalharam
Estudo genético reconstrói milhões de anos de dispersão e aponta a América do Norte como provável origem de uma família com mais de cem espécies
De florestas tropicais a campos temperados, mais de cem espécies de icterídeos ocupam diferentes ambientes das Américas. Essa família de aves, conhecida cientificamente como Icteridae, inclui os orioles americanos, grackles, chupins e outros pássaros aparentados. Um estudo publicado em setembro de 2026 reconstruiu sua história biogeográfica e encontrou evidências de que seus ancestrais provavelmente surgiram na América do Norte, antes de avançarem gradualmente para o sul.
Onde surgiram os primeiros ancestrais dos icterídeos?
Durante décadas, pesquisadores discutiram se a família teria surgido nas regiões tropicais da América do Sul ou nas áreas temperadas da América do Norte. A ampla distribuição atual dificultava identificar o ponto de origem apenas pela localização das espécies existentes.
A nova análise favorece uma origem neártica, correspondente principalmente à América do Norte. Os pesquisadores reconstruíram as áreas ancestrais com modelos evolutivos e identificaram uma expansão progressiva em direção aos trópicos. Essa conclusão representa uma inferência estatística baseada nas relações evolutivas das aves, não uma observação direta de seus ancestrais.
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Como os icterídeos conseguiram se espalhar pelas Américas?
O estudo identificou uma sequência de dispersão que começou na América do Norte e alcançou inicialmente a Mesoamérica, aproximadamente 7,53 milhões de anos atrás. Posteriormente, diferentes linhagens chegaram à Amazônia, à região andina e às partes meridionais da América do Sul, até alcançar a Patagônia.
As principais etapas reconstruídas foram:
- América do Norte, provável região ancestral;
- Mesoamérica, alcançada há cerca de 7,53 milhões de anos;
- Amazônia, colonizada aproximadamente há 6,06 milhões de anos;
- Região andina, alcançada há cerca de 5,84 milhões de anos;
- América do Sul meridional e Patagônia, ocupadas posteriormente.
O vídeo apresenta a diversidade dos icterídeos e suas características biológicas.
O que o DNA revelou sobre a evolução dessas aves?
As reconstruções utilizam árvores filogenéticas produzidas a partir de informações genéticas. Comparações entre sequências de DNA permitem identificar relações de parentesco e estimar quando determinadas linhagens compartilharam ancestrais comuns. Quando essas informações são combinadas com a distribuição geográfica, tornam possível investigar antigas rotas de dispersão.
Os pesquisadores compararam 18 modelos de evolução geográfica, considerando diferentes hipóteses de movimentação entre regiões. A análise identificou seis áreas biogeográficas distintas. Os resultados indicaram que a dispersão ampliou a distribuição da família, enquanto a formação de novas espécies ocorreu predominantemente dentro das regiões já ocupadas.
Como o estudo conseguiu reconstruir milhões de anos de migração?
A pesquisa foi conduzida por Axel Arango García e Chaitanya S. Gokhale, da Universidade de Würzburg, na Alemanha. Publicado em 14 de setembro de 2026, o estudo na revista Frontiers of Biogeography combinou reconstrução de áreas ancestrais, mapeamento biogeográfico probabilístico e modelos de especiação e extinção.
Uma descoberta relevante foi que linhagens de icterídeos alcançaram a América do Sul antes da consolidação final da conexão terrestre do istmo do Panamá. Isso sugere que a dispersão entre os continentes já acontecia durante fases anteriores do Grande Intercâmbio Biótico Americano. Entretanto, o estudo não identifica uma rota física única percorrida por cada ancestral.

Quais regiões participaram da diversificação dos icterídeos?
A análise mostrou que a Mesoamérica funcionou como importante região intermediária entre os continentes. A Amazônia e a região andina também participaram da expansão, enquanto a Patagônia apareceu como uma das últimas áreas alcançadas pelas linhagens estudadas.
Os pesquisadores destacaram que ocupar novas regiões não significa necessariamente produzir espécies mais rapidamente. Características ecológicas, comportamentos reprodutivos e seleção sexual podem ter influenciado a diversificação, embora seus efeitos específicos ainda precisem ser investigados diretamente.
Por que a história dos icterídeos ajuda a compreender a biodiversidade americana?
Atualmente, os icterídeos apresentam grande diversidade de plumagens, vocalizações e comportamentos alimentares. Algumas espécies vivem em áreas abertas, enquanto outras ocupam florestas ou ambientes úmidos. Essa variedade mostra como linhagens aparentadas podem explorar diferentes condições ambientais ao longo de sua evolução.
A reconstrução também contribui para compreender o intercâmbio de organismos entre as Américas. Os resultados sugerem que a expansão geográfica e a formação de espécies foram processos relacionados, mas distintos. Investigações futuras poderão esclarecer como mudanças climáticas, especialização ecológica e características reprodutivas influenciaram a extraordinária diversidade dessa família.
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