Uma baleia mudou a rota de alimentação quando anoiteceu e câmeras mostram que ela sobe justamente quando barcos ficam mais perigosos
Etiquetas com vídeo e sensores revelam alimentação próxima da superfície durante a noite e expõem uma janela pouco conhecida de risco
Etiquetas com câmeras revelaram um comportamento que permanecia praticamente invisível aos pesquisadores. A baleia-franca-do-Atlântico-Norte (Eubalaena glacialis) tende a procurar alimento perto do fundo durante o dia, mas pode subir para águas rasas durante a noite. Essa mudança acompanha o deslocamento de suas presas e coloca os animais justamente na faixa de profundidade onde colisões com embarcações representam uma ameaça maior.
Como a baleia-franca muda sua alimentação quando anoitece?
Os pesquisadores instalaram etiquetas CATS em 23 baleias-francas-do-Atlântico-Norte no vale de Shediac, no sul do golfo de São Lourenço, Canadá. Os dispositivos combinaram câmeras subaquáticas, sensores de movimento e registros de profundidade, permitindo acompanhar atividades impossíveis de observar continuamente da superfície.
As imagens mostraram animais alimentando-se próximos ao fundo durante o dia. Quando chegou a noite e as câmeras deixaram de fornecer imagens úteis, padrões de movimento identificados anteriormente permitiram reconhecer alimentação em profundidades menores, revelando uma mudança diária que métodos baseados somente no formato dos mergulhos haviam subestimado.
Como as câmeras reconheceram quando uma baleia-franca estava comendo?
As baleias-francas alimentam-se nadando com a boca aberta e filtrando grandes volumes de água através das barbatanas. Abrir a boca aumenta fortemente o arrasto, reduz a velocidade do animal e exige movimentos mais intensos da cauda. Esses sinais físicos ficaram registrados simultaneamente pelas câmeras e pelos sensores.
Os pesquisadores usaram episódios confirmados em vídeo para treinar modelos de aprendizado de máquina. O melhor classificador, baseado em máquina de vetores de suporte, alcançou aproximadamente 95% de acurácia nos testes e conseguiu reconhecer períodos de alimentação mesmo quando não havia imagens utilizáveis.
- 23 baleias receberam etiquetas;
- Vídeo e movimento foram registrados simultaneamente;
- Melhor modelo atingiu cerca de 95% de acurácia;
- Alimentação média estimada em 11,4 horas por dia;
- Atividade noturna ocorreu mais perto da superfície.
Este vídeo trata especificamente do risco de colisões entre embarcações e baleias-francas-do-Atlântico-Norte.
Por que as baleias sobem para comer durante a noite?
A explicação mais provável está no zooplâncton consumido pelas baleias. Muitos organismos planctônicos alteram sua posição vertical ao longo do ciclo diário. Durante determinadas horas noturnas, concentrações de presas podem deslocar-se para regiões mais superficiais, e as baleias parecem acompanhá-las.
Isso significa que a mudança de profundidade não deve ser interpretada como uma decisão voltada às embarcações. As baleias estão seguindo recursos alimentares. O problema surge porque essa estratégia natural coloca os animais numa camada de água compartilhada com cascos e hélices, justamente quando a visibilidade humana é menor.
O que o estudo revelou sobre a baleia-franca e o risco de colisão?
O estudo publicado na PLOS ONE mostrou que métodos tradicionais baseados apenas na profundidade e no formato do mergulho deixavam de reconhecer uma parcela relevante da alimentação noturna. A auditoria por vídeo detectou 43,1% mais alimentação do que esse método, enquanto o modelo cinemático indicou diferença de 54,9%.
As pseudotrajétorias reconstruídas também indicaram que os animais marcados passaram coletivamente 74,6% do tempo dentro de uma zona de exclusão de embarcações. O resultado não calcula diretamente quantas colisões ocorreriam à noite, mas identifica uma combinação preocupante de alimentação superficial e baixa visibilidade.

Quanto tempo essas baleias passam se alimentando?
As estimativas variaram bastante entre indivíduos. Dependendo da baleia observada, de 11% a 76% do período registrado foi classificado como alimentação ativa. A média calculada correspondeu a aproximadamente 11,4 horas de filtragem por dia.
Esses números não significam que todas as baleias tenham exatamente a mesma rotina. A disponibilidade das presas, a condição de cada indivíduo e as características locais podem alterar o comportamento. O estudo descreve os animais etiquetados e não deve ser extrapolado automaticamente para toda a população.
Por que a baleia-franca fica especialmente vulnerável perto da superfície?
A espécie já enfrenta colisões com embarcações e emalhamento em equipamentos de pesca como ameaças importantes. Sua coloração escura, ausência de nadadeira dorsal e permanência próxima da superfície também dificultam a identificação por tripulações, principalmente em condições de pouca luz.
A alimentação noturna acrescenta uma informação relevante para estratégias de proteção. Se os animais modificam sua profundidade ao longo do dia, medidas baseadas apenas em observações diurnas podem subestimar momentos de maior sobreposição com barcos. Incorporar comportamento horário pode melhorar avaliações futuras de risco.
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